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Durante décadas, serviços sofisticados de gestão patrimonial ficaram concentrados entre clientes de alta renda, especialmente aqueles com patrimônio suficiente para acessar estruturas de private banking e family office. A combinação de inteligência artificial, Open Finance e novos modelos de cobrança começa, porém, a desafiar esse cenário.
Esse movimento vem sendo chamado de AI Wealth, uma nova geração de serviços financeiros que utiliza inteligência artificial para analisar investimentos, identificar oportunidades ou ineficiências e ajudar profissionais a oferecer recomendações mais personalizadas. No Brasil, empresas como Decade, Revert e Osira adotam estratégias diferentes para explorar esse mercado.
A proposta não consiste simplesmente em substituir o assessor de investimentos por um robô. O objetivo é usar tecnologia para compreender uma quantidade maior de informações financeiras, reduzir tarefas operacionais e permitir que o acompanhamento patrimonial se torne mais personalizado e, potencialmente, mais acessível.

O que é AI Wealth e como funciona
A primeira geração dos chamados robôs de investimento normalmente utilizava questionários para identificar o perfil do investidor e, a partir das respostas, direcioná-lo para uma entre algumas carteiras previamente montadas. Segundo o material, plataformas como Vérios, Magnetis, Monetus e Warren chegaram a somar R$ 1,1 bilhão em ativos em 2019, mas enfrentavam uma limitação importante: não tinham uma visão completa do patrimônio do cliente.
Uma pessoa poderia ter investimentos em diferentes bancos, previdência privada, recursos mantidos no exterior, participação em empresas, imóveis ou estruturas patrimoniais que simplesmente não apareciam para aquele algoritmo.
É justamente neste ponto que o Open Finance se torna importante. Com a inclusão dos investimentos entre os dados que podem ser compartilhados pelo sistema, tornou-se possível reunir informações financeiras mantidas em instituições diferentes mediante autorização do próprio cliente.
A inteligência artificial pode então trabalhar sobre uma base mais ampla. Em vez de simplesmente classificar alguém como conservador, moderado ou agressivo e indicar uma carteira padrão, o sistema pode analisar posições concretas e encontrar situações que merecem atenção.
O exemplo apresentado pelo documento é simples: a IA poderia identificar R$ 50 mil mantidos em um CDB com rendimento abaixo do CDI enquanto considera outros investimentos e objetivos financeiros daquele cliente. A ideia é avançar do modelo de carteira pronta para uma espécie de plano patrimonial individualizado.
Comissões, taxas e o custo da assessoria de investimentos
Um dos principais argumentos apresentados pelas empresas de AI Wealth está relacionado ao custo da distribuição de investimentos.
No modelo tradicional comissionado, parte da remuneração do profissional ou da instituição pode estar incorporada aos próprios produtos oferecidos. O documento utiliza como referência um ROA — retorno sobre ativos para o distribuidor — de aproximadamente 0,5% a 0,7% do patrimônio por ano. Em uma carteira de R$ 400 mil, isso representaria algo entre R$ 2 mil e R$ 2,8 mil anuais.
A discussão ganhou importância à medida que aumentou a transparência sobre essas remunerações. A Resolução CVM 179 ampliou a divulgação das remunerações recebidas por intermediários na distribuição de produtos, permitindo que investidores compreendam melhor quanto está sendo pago pelos serviços relacionados aos seus investimentos.
Há diferentes alternativas de cobrança. Uma delas é o chamado fee-based, no qual o cliente paga um percentual previamente estabelecido sobre o patrimônio acompanhado. O material trabalha com exemplos entre 0,5% e 1% ao ano.
Outra possibilidade é a assinatura fixa. A Decade, por exemplo, aparece no documento com uma cobrança de R$ 200 por mês, independentemente do volume monitorado. Nesse modelo, conforme o patrimônio cresce, o peso percentual da assinatura sobre os ativos diminui.
O custo, entretanto, não deve ser o único critério. O investidor precisa observar quais serviços estão incluídos, se há comissões adicionais, se a empresa produz ou distribui produtos próprios e quais potenciais conflitos de interesse podem existir.
Decade, Revert e Osira mostram diferentes modelos de AI Wealth
Embora sejam agrupadas dentro do universo de AI Wealth, as empresas apresentadas pelo documento seguem caminhos bastante diferentes.
A Decade direciona sua plataforma ao investidor. O usuário conecta suas contas por meio do Open Finance e a inteligência artificial acompanha o patrimônio, enquanto profissionais podem participar de situações que demandam julgamento humano. O modelo apresentado no documento utiliza uma assinatura mensal de R$ 200.
A Revert trabalha em outra camada do mercado. Em vez de atender diretamente o investidor, fornece tecnologia para consultores. Seus agentes de IA podem consolidar carteiras, reconciliar extratos e produzir relatórios, automatizando parte significativa do trabalho operacional. A tese é permitir que um profissional acompanhe um número maior de clientes sem ampliar proporcionalmente a estrutura necessária para atendê-los.
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Já a Osira procura aproximar o modelo tecnológico da lógica de um multi-family office. Isso significa observar não somente os investimentos financeiros, mas também aspectos como empresas, imóveis, holdings, previdência e planejamento sucessório. Nesse caso, a IA aparece principalmente como ferramenta para liberar tempo do consultor para atividades que exigem análise e interação humana.
As três abordagens deixam clara uma característica importante dessa nova etapa da gestão patrimonial: não existe um único modelo de AI Wealth. Algumas empresas pretendem automatizar diretamente a análise do patrimônio, outras vendem infraestrutura para profissionais e outras combinam tecnologia com consultoria patrimonial mais abrangente.
A diferença também aparece na forma de remuneração. Enquanto uma plataforma pode cobrar uma assinatura fixa, outra pode ser remunerada pelo consultor que utiliza sua infraestrutura e uma terceira pode adotar uma taxa proporcional ao patrimônio acompanhado. O ponto comum é a aposta de que a inteligência artificial pode reduzir o custo necessário para oferecer aconselhamento financeiro mais sofisticado.
No longo prazo, o impacto da AI Wealth dependerá menos da capacidade de simplesmente indicar investimentos e mais da possibilidade de reunir dados dispersos, compreender objetivos pessoais e transformar essas informações em decisões financeiras úteis.
Se essa proposta funcionar, a principal mudança talvez não seja a substituição do assessor pela inteligência artificial, mas a transformação do profissional em alguém que utiliza sistemas automatizados para dedicar menos tempo a extratos, conciliações e relatórios — e mais tempo às decisões em que experiência, contexto e julgamento continuam fazendo diferença.






