- Bitcoin recua a US$ 76.770 e acumula queda de 2% em 24 horas
- Liquidações em cripto ultrapassam US$ 672 milhões no fim de semana
- ETFs spot perdem US$ 1 bi na semana, maior saída desde janeiro
O Bitcoin abriu a semana operando na mínima de três semanas, pressionado por um movimento atípico no mercado de títulos públicos americanos. O ativo era negociado perto de US$ 76.770 nesta segunda-feira, com queda de 2% em 24 horas, segundo o CoinGecko. O tombo arrastou consigo todo o mercado cripto e provocou US$ 672 milhões em liquidações de posições alavancadas, conforme dados do CoinGlass.
O estopim veio do mercado de renda fixa. O rendimento do Treasury de 10 anos tocou 4,63% no domingo à noite, o maior patamar desde fevereiro de 2025. A alta acumula 70 pontos-base desde o início da guerra com o Irã, segundo levantamento do The Kobeissi Letter publicado nas redes sociais.
Esse nível supera em quatro pontos-base o yield que levou o presidente Donald Trump a anunciar a pausa de 90 dias nas tarifas em abril de 2025. Com taxas de hipoteca americanas perto de 7% e a probabilidade de corte de juros pelo Fed em 2025 desabando para apenas 2%, o quadro fiscal dos Estados Unidos voltou ao centro do radar.
O novo canal de transmissão do risco
Diego Martin, CEO da Yellow Capital, explicou ao Decrypt que choques geopolíticos já não atingem mais o Bitcoin pela via direta. “Eles batem nos yields dos Treasuries, que mexem com o apetite por risco, que afeta o fluxo de ETFs, que aí sim chega no Bitcoin”, afirmou. “A transmissão hoje é institucional.”
Essa cadeia ficou visível nos números dos fundos listados. ETFs spot de Bitcoin nos EUA sangraram US$ 1 bilhão na semana encerrada em 15 de maio, segundo a SoSoValue. Foi a maior saída líquida desde a semana de 30 de janeiro, quando os produtos perderam US$ 1,49 bilhão. Na semana anterior, o saldo havia sido positivo em US$ 622,75 milhões. O dado foi destacado por Alex Thorne, head de pesquisa da Galaxy, em publicação no X.
Para o investidor brasileiro, o canal de contágio é o mesmo: quando o juro americano sobe, o dólar tende a se fortalecer, o real perde força e ativos de risco no mercado local — incluindo posições em ETFs de Bitcoin e em cripto via exchanges como Mercado Bitcoin e Binance — perdem fluxo. A escalada dos Treasuries também encarece o financiamento de teses alavancadas, justamente o combustível que sustentou a alta do BTC nos meses anteriores.
O nível de US$ 77 mil vira linha de defesa
Martin alerta que o patamar de US$ 77 mil é a referência técnica imediata. “Se US$ 77 mil ceder enquanto o open interest dos perpétuos seguir elevado, a conta de desalavancagem fica desconfortável rápido. Um reteste de US$ 70 mil ou abaixo deixa de ser cauda de risco e vira cenário concreto”, disse o executivo. Ele projeta que as próximas 48 horas de fluxo nos ETFs vão dizer muito sobre a direção.
No mercado de previsões Myriad, a probabilidade de o Bitcoin atingir US$ 84 mil antes de cair mais caiu de 89% na quinta-feira para 74% nesta segunda. Sinal de que apostadores também recalibraram o otimismo.
Georgii Verbitskii, trader de derivativos e fundador da TYMIO, acrescenta um detalhe importante. Mesmo com S&P 500 e Nasdaq registrando ganhos firmes puxados pelo rali de IA, a recuperação do Bitcoin tem sido tímida. Isso, segundo ele, indica falta de demanda orgânica nos preços atuais — o BTC só sobe quando o mercado de ações puxa.
A leitura combina com o cenário de varejo ausente e dependência crescente do fluxo institucional. Enquanto o Treasury de 10 anos não recuar, o Bitcoin segue refém de uma engrenagem que começou bem longe das exchanges. Os dados completos do mercado de bonds estão disponíveis na página oficial do Tesouro dos EUA. Outro fator que pesa é a possibilidade de novas vendas por tesourarias corporativas, conforme já sinalizou o caso recompra de dívida da Strategy.
