- Reserva soberana de El Salvador alcança 7.762 BTC nesta semana
- Estoque vale cerca de US$ 598 milhões na cotação atual
- Acordo com FMI de US$ 1,4 bilhão pediu suspensão das compras públicas
O governo de El Salvador confirmou nesta semana que sua reserva soberana de bitcoin chegou a 7.762 BTC. O anúncio partiu do Bitcoin Office, órgão responsável por administrar os ativos digitais do país centro-americano, e reforça uma política que já dura cinco anos: comprar uma moeda por dia, sem se importar com o preço do momento.
Na cotação atual, com o BTC negociado a US$ 77.230, o estoque salvadorenho vale aproximadamente US$ 598 milhões. Em reais, o volume ultrapassa R$ 3 bilhões. Só entre janeiro e abril de 2026, o país adicionou mais de 1.600 unidades ao cofre nacional — um ritmo que não deu sinais de desaceleração.
Pressão do FMI não freou compras diárias
A insistência do presidente Nayib Bukele chama atenção porque acontece contra a vontade explícita do Fundo Monetário Internacional. Em acordo de financiamento de US$ 1,4 bilhão assinado no final de 2024, o FMI exigiu que o país restringisse compras públicas de bitcoin e tornasse voluntária a aceitação por comerciantes.
Parte do trato foi cumprida. O status de moeda de curso legal, aprovado em 2021, foi revogado por emenda legislativa vinculada ao pacote. Mas a política de acumulação da tesouraria nunca esteve no escopo da reversão. Bukele manteve as compras sem interrupção e classifica publicamente a reserva como uma posição de longo prazo.
Com isso, El Salvador figura entre os maiores detentores soberanos declarados do ativo no mundo, atrás apenas de um punhado de nações com economias muito maiores — como Estados Unidos e Reino Unido, cujos estoques vêm principalmente de apreensões judiciais.
Estratégia de DCA em escala nacional
O modelo salvadorenho é, na prática, um dollar-cost averaging em escala estatal. A tese é simples: importa mais quantas moedas se acumula do que o preço de cada compra individual. Um ano atrás, os mesmos 7.762 BTC valeriam consideravelmente menos no papel. Um ano à frente, podem valer mais ou menos.
A oscilação diária é justamente o ponto que Bukele repete há anos. Se o objetivo fosse acertar topos e fundos, a estratégia teria fracassado várias vezes desde 2021 — inclusive no bear market de 2022, quando o BTC chegou perto de US$ 16 mil e o país foi alvo de análises apontando “prejuízo bilionário” no papel.
Chivo fracassa, mas cofre sobrevive
A reserva é apenas a peça mais visível de uma aposta cripto mais ampla. El Salvador foi o primeiro país a adotar o bitcoin como moeda oficial e criou a carteira estatal Chivo para incentivar o uso cotidiano. O experimento com a Chivo enfrentou falhas técnicas, denúncias de fraude de identidade e adesão baixa da população.
Já o status de curso legal foi extinto no acordo com o FMI. Mesmo assim, o pilar de acumulação em tesouraria sobreviveu intacto ao recuo — o que sugere que Bukele encara o cofre como o núcleo real da política, e não a circulação varejista.
Paralelo com tesourarias corporativas e leitura para o Brasil
O comportamento salvadorenho ecoa a estratégia adotada por empresas como a Strategy de Michael Saylor e a Strive, que compram BTC em cadência regular independentemente do preço. A diferença é que aqui a contraparte é um Estado soberano — e as consequências diplomáticas com organismos multilaterais são reais.
Para o investidor brasileiro, o caso serve como referência regulatória concreta. Enquanto El Salvador acumula, o Brasil segue o caminho oposto: em julho, o TSE suspendeu campanha de candidato que propunha reserva estratégica de bitcoin, e a Receita Federal já sinalizou intenção de cruzar dados de cripto com outros países até 2027. A próxima compra salvadorenha, no ritmo atual, está a apenas um dia de distância.

