- FG Nexus acumula prejuízo realizado superior a US$ 85 milhões com tesouraria em ETH
- Empresa comprou 50.770 ETH a US$ 3.860 e agora vende perto de US$ 2.300
- Galaxy Digital recompra 10 mil ETH em meio à liquidação da posição
A tentativa da FG Nexus de replicar o modelo da Strategy (ex-MicroStrategy) usando Ethereum como ativo de tesouraria virou um dos piores cases corporativos do ciclo. A companhia listada na Nasdaq sob o ticker FGNX antiga Fundamental Global já acumula prejuízos realizados superiores a US$ 85 milhões com a estratégia, segundo divulgação feita no início de junho de 2026.
Os números expõem o tamanho do erro de timing. Entre agosto e setembro de 2025, a empresa converteu praticamente toda sua captação privada em ETH, comprando 50.770 unidades por cerca de US$ 196 milhões. O preço médio ficou em torno de US$ 3.860 por token. Hoje, as vendas de desova têm saído perto de US$ 2.300 por ETH um desconto de aproximadamente 40% sobre o custo de aquisição.
Como a aposta de US$ 200 milhões azedou
A tese parecia simples em meados de 2025. A FG Nexus levantou US$ 200 milhões em uma colocação privada com participação de nomes como Galaxy Digital, Kraken e Hivemind Capital. A ideia era transformar a ação em um proxy alavancado de ETH, espelhando o que Michael Saylor construiu com Bitcoin.
O problema é que não houve diluição da entrada no tempo. A companhia executou quase todo o orçamento em uma janela curta de dois meses, sem hedge público, sem diversificação entre ativos digitais e sem reserva de caixa relevante para atravessar drawdowns. Quando o ETH virou, a tesouraria virou junto e arrastou consigo a saúde financeira da holding.
O balanço do 1º trimestre de 2026 já mostrava o estrago. A FG Nexus reportou prejuízo líquido de US$ 38,6 milhões no período, dos quais cerca de US$ 36,7 milhões vieram diretamente de perdas realizadas e não realizadas com a posição em Ethereum. De lá para cá, o sangramento continuou.
Galaxy Digital recompra 10 mil ETH em meio à liquidação
Dados on-chain mapearam saídas relevantes de carteiras associadas à empresa nas últimas semanas. A movimentação mais comentada foi a transferência de 10.000 ETH para a Galaxy Digital, avaliada em cerca de US$ 18,16 milhões. Analistas projetam que o prejuízo total pode ultrapassar US$ 100 milhões caso a FG Nexus encerre por completo a posição nos níveis atuais.
O detalhe interessante está do outro lado da mesa. A própria Galaxy, que entrou como investidora na captação original, agora reaparece como compradora dos lotes liquidados. Historicamente, a gestora de Mike Novogratz tem usado momentos de distress para acumular sinal de que parte do dinheiro sofisticado enxerga a faixa atual do ETH como zona de acumulação, e não de fuga.
Hoje, o Ethereum é negociado a US$ 1.766 (R$ 8.944), com queda de 5,6% nas últimas 24 horas. O patamar coloca o ETH mais de 50% abaixo do preço médio de compra da FG Nexus e ajuda a explicar por que o desfecho contábil do trade tende a piorar antes de melhorar. Movimento semelhante de acumulação por endereços grandes tem sido captado por monitores on-chain, conforme mostrou levantamento sobre baleias acumulando ETH.
Recado aos conselhos de empresas cripto
O caso FG Nexus chega num momento sensível para o modelo de tesouraria em cripto. Enquanto a Strive amplia oferta para comprar mais BTC e a Bitmine segue empilhando ETH, a própria Strategy vendeu 32 BTC recentemente algo impensável meses atrás. O ciclo está separando as empresas com balanço robusto daquelas que entraram alavancadas demais.
Para CFOs e comitês de auditoria que avaliam alocar caixa corporativo em ativos digitais, a perda de US$ 85 milhões em menos de um ano sobre um aporte de US$ 196 milhões funciona como manual do que não fazer, concentração total em um ativo, janela de compra curta e ausência de plano de saída. No Brasil, onde a CVM ainda discute o tratamento contábil de cripto em balanço de empresas listadas na B3, o episódio reforça a tese de que tesouraria em ativos digitais exige política de risco formal não apenas convicção de mesa.
