- Expectativa de inflação de 1 ano nos EUA sobe para 4,8% em maio
- Pesquisa da Bitwise mostra Bitcoin mais correlacionado a expectativas de inflação desde 2020
- Estudos apontam BTC como ativo de alto beta, não como hedge confiável contra inflação
A expectativa de inflação de um ano nos Estados Unidos subiu para 4,8% em maio, segundo leitura final da pesquisa da Universidade de Michigan. O número veio acima da prévia de 4,5% e do dado anterior de 4,7%, reforçando a percepção de que o ciclo inflacionário americano segue longe do controle e colocando em xeque a tese de que o Bitcoin funciona como ouro digital em ambientes de pressão de preços.
O dado mexe diretamente com o cálculo dos investidores. Quando a expectativa de inflação se distancia da meta de 2% do Federal Reserve, dois caminhos se abrem, ou o BTC ganha tração como reserva de valor anti-debasement, ou apanha como ativo de risco diante de uma política monetária mais dura. Por enquanto, o segundo cenário tem prevalecido.
O que os números realmente mostram
Outros termômetros confirmam a leitura. A taxa de inflação implícita de cinco anos do Fed de St. Louis, baseada em títulos protegidos contra inflação (TIPS), permanece acima de 2,3% no fim de maio. Estrategistas do Peterson Institute alertam que tarifas comerciais, déficit fiscal próximo a 7% do PIB e restrições no mercado de trabalho mantêm o risco de inflação elevada “materialmente alto” em 2026.
A diretora da pesquisa de consumidores, Joanne Hsu, destacou em comunicado oficial que 57% dos entrevistados mencionaram espontaneamente que preços altos corroem suas finanças pessoais, contra 50% no mês anterior. Independentes e republicanos registraram a menor leitura de confiança desde o início da atual administração presidencial.
Bitcoin é hedge ou apenas trade macro?
Pesquisa da Bitwise Investments mostra que, desde 2020, o BTC deixou de ser o ativo menos correlacionado com expectativas de inflação para se tornar o mais correlacionado. O fundo do mercado em março de 2020 coincidiu com o piso das expectativas inflacionárias. Os topos de abril e novembro de 2021 também bateram com picos de inflação implícita.
Correlação, porém, não é proteção. Estudo de 2023 concluiu que o Bitcoin não preservou riqueza de forma confiável em períodos inflacionários. O ativo costuma cair quando surpresas inflacionárias forçam o mercado a precificar aperto monetário mais agressivo comportamento típico de ações de tecnologia alavancadas, não de ouro.
O exemplo recente é didático. Entre 2021 e 2022, o CPI americano ultrapassou 7% em base anual por meses seguidos. No mesmo período, o BTC desabou de quase US$ 69 mil para menos de US$ 20 mil. A queda foi puxada pelo ciclo mais rápido de altas de juros do Fed em quatro décadas, somado às quebras de Terra e FTX. O cenário de juros altos voltou a pressionar o ativo em 2026.
O que muda para o investidor brasileiro
Para quem opera no Brasil, a leitura ganha camadas adicionais. O dólar tende a se valorizar contra o real quando o mercado precifica Fed mais hawkish, o que mecanicamente eleva o preço do BTC em reais mesmo em quedas no par BTC/USD. Esse efeito amortecedor já apareceu em ciclos anteriores e pode mascarar perdas para quem só acompanha a cotação local. O Banco Central brasileiro, por sua vez, monitora o ambiente externo para calibrar a Selic uma postura mais dura do Fed reduz espaço para cortes locais, drenando liquidez de ativos de risco no Ibovespa e em exchanges nacionais.
O movimento também aparece no comportamento institucional. Dados recentes mostram que investidores americanos venderam US$ 1,34 bilhão em BTC em quatro pregões, sinalizando aversão ao risco. Os ETFs spot de Bitcoin acumulam saques expressivos, com o IBIT da BlackRock liderando resgates. O fluxo destoa do discurso de proteção contra inflação adotado por gestoras durante a fase de alta.
A leitura de 4,8% reforça uma dualidade que o mercado ainda não resolveu. O BTC absorve narrativa de debasement monetário quando expectativas inflacionárias sobem, mas reage como ativo de alto beta quando o custo de capital aperta. Sob estresse, o comportamento tem se parecido mais com um derivativo volátil do ciclo macro do que com um porto seguro.
