- CPI dos EUA salta a 4,2% em maio, maior nível em 18 meses
- Warsh descarta cortes pedidos por Trump e promete ‘estabilidade de preços’
- Bank of America projeta três altas de juros do Fed até 2027
O primeiro recado do novo presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, veio sem rodeios. Na estreia à frente do FOMC, na semana passada, ele indicou que o banco central norte-americano vai endurecer o combate à inflação, mesmo contra a vontade da Casa Branca. A reação foi imediata: o S&P 500 caiu 1,2% no dia do comunicado, e o mercado de cripto também sentiu o aperto.
O comunicado oficial do comitê, aprovado por unanimidade, foi curto e direto.
“O Comitê entregará estabilidade de preços”, afirmou o FOMC.
A frase, simples na aparência, contraria abertamente o presidente Donald Trump, que tem pressionado publicamente por cortes na taxa básica para reaquecer a economia.
Hoje, a faixa do federal funds rate está entre 3,5% e 3,75%. Para analistas do Bank of America, o tom usado por Warsh sugere que o Fed não apenas descarta cortes, como pode promover até três altas de juros antes de 2027. O calendário oficial do FOMC mantém duas reuniões ainda neste ano.
CPI sobe a 4,2% e pressiona decisão
O pano de fundo da virada de discurso é o avanço da inflação. O Índice de Preços ao Consumidor (CPI) dos Estados Unidos subiu para 4,2% em maio, o maior patamar em 18 meses. O dado rompeu a faixa de 2,3% a 3,8% em que o indicador oscilava desde julho de 2023 e ficou mais que o dobro da meta oficial de 2% ao ano, estabelecida formalmente em 2012.
O histórico recente mostra como o problema é persistente. O CPI não fica abaixo de 2% desde fevereiro de 2021. Em junho de 2022, chegou a 9%, o pico do ciclo pandêmico. Entre agosto de 2023 e agosto de 2024, o Fed elevou os juros até 5,3% e ainda assim não conseguiu cravar a meta. Se Warsh repetir essa cartilha, o terminal desta nova rodada de aperto pode superar aquele patamar.
A leitura cai como uma luva para o que o presidente do Fed de Minneapolis, Neel Kashkari, já vinha sinalizando há semanas. Como o BitNotícias mostrou recentemente, Kashkari mudou de lado e passou a defender alta de juros em 2026 agora respaldado pelo próprio chair.
Bitcoin perde US$ 60 mil enquanto liquidez encolhe
Para o investidor brasileiro, o efeito da postura de Warsh já aparece nas telas. O Bitcoin opera a US$ 60.070 (cerca de R$ 310.481), em queda de 0,8% nas últimas 24 horas, e perdeu de vez a marca dos US$ 60 mil. O Ethereum está em US$ 1.579, e o XRP recua a US$ 1,04. Altcoins como AVAX (-4,1%) e DOT (-5%) lideram as perdas no dia.
O movimento confirma a tese de que ativos de risco em especial cripto e ações de crescimento sofrem quando o custo do dinheiro sobe. Empresas que financiam expansão com dívida, incluindo nomes ligados a infraestrutura de inteligência artificial, tendem a postergar investimentos. Bancos e seguradoras, por outro lado, capturam margens maiores em operações de crédito.
No ecossistema cripto, o aperto bate em cheio em mineradoras e em empresas que tomaram dívida para acumular Bitcoin no balanço. O caso mais simbólico é o da Strategy, de Michael Saylor, que enfrenta vencimentos enquanto a ação MSTR desvaloriza, conforme levantamento do BitNotícias. Juros mais altos por mais tempo encarecem qualquer rolagem.
Copom segue o mesmo roteiro no Brasil
O cenário tem paralelo direto no Brasil. O Copom manteve a Selic em patamar elevado em sua última reunião, citando justamente a resistência da inflação americana como risco externo. A combinação de dólar firme hoje a R$ 5,1690 e juros altos nas duas pontas tende a drenar liquidez de exchanges locais, encarecer o custo de operações alavancadas em real e pesar sobre o fluxo para ETFs cripto listados na B3. O canal Yahoo Finance trouxe a repercussão original da fala de Warsh no dia do anúncio.
Os ETFs spot de Bitcoin nos Estados Unidos já vinham em ritmo de resgates antes do comunicado e devem prolongar o ciclo negativo se a curva de juros americana inclinar para cima nas próximas semanas.
