Saylor esta ‘desesperado’ com prejuízo de US$ 10,8 bi em Bitcoin e quer unir a comunidade

  • Strategy registra prejuízo não realizado de US$ 10,8 bilhões com 843.706 BTC em caixa
  • Saylor publica manifesto e divide ecossistema Bitcoin em quatro ideologias
  • Bitcoin opera abaixo de US$ 61 mil após mínima diária próxima de US$ 62,2 mil

O Bitcoin furou o piso de US$ 63 mil nesta semana e levou junto a tese mais cara de Wall Street: a montada por Michael Saylor à frente da Strategy. Com a queda, o portfólio da companhia passou a registrar prejuízo não realizado de US$ 10,8 bilhões, e o executivo respondeu da forma que se tornou marca registrada — publicando um novo manifesto.

O texto, batizado de The Four Ideologies of Bitcoin, tenta deslocar o debate do balanço para a filosofia. Saylor divide a comunidade em quatro grupos: maximalistas, que sustentam a fé na rede; capitalistas, que integram o ativo a fundos tradicionais; tecnólogos, responsáveis por soluções de segunda camada; e fundamentalistas, guardiões da descentralização.

Manifesto tenta conciliar cypherpunks e BlackRock

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A tese central do ensaio é pragmática. Para Saylor, o Bitcoin precisa simultaneamente dos cypherpunks radicais e de gigantes como a BlackRock. A rede deve crescer, mas a camada-base tem de seguir ultraconservadora — todo experimento comercial e tecnológico ficaria nas camadas superiores.

A leitura serve a um propósito claro: justificar a coexistência entre o discurso libertário que deu origem ao ativo e o ETF spot que hoje sustenta boa parte da demanda institucional. Saylor, como maior detentor corporativo do mundo, precisa que essas duas narrativas convivam sem ruído. Sem ETF, não há fluxo. Sem cypherpunk, não há ativo escasso para vender.

O timing, porém, é incômodo. O comunicado institucional da Strategy chega no momento em que a empresa carrega 843.706 BTC a um preço médio de compra de US$ 75.699. No mercado atual, essa posição vale cerca de US$ 52,3 bilhões — bem abaixo do custo total de aquisição.

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Strategy rompe doutrina do ‘never sell’

O cenário se agravou no fim de maio, quando a empresa quebrou pela primeira vez sua própria regra do never sell. A Strategy liquidou 32 BTC por US$ 2,5 milhões para honrar dividendos das ações preferenciais STRC, cujo preço havia caído abaixo do valor nominal.

O movimento foi pequeno em volume, mas simbólico em sinalização. A doutrina de nunca vender era um dos pilares retóricos que sustentavam o prêmio das ações MSTR sobre o valor líquido do Bitcoin em caixa. Romper esse compromisso, ainda que por motivo financeiro contábil, abre precedente — e precedentes pesam quando o ativo subjacente cai.

Saylor atribui a correção mais ampla do mercado a fatores temporários. O principal, segundo ele, seria a rotação de capital de investidores para projetos de inteligência artificial. A leitura é conveniente: posiciona a queda como ciclo, não como falha estrutural, e sugere que a Strategy pode voltar a comprar na baixa.

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Bitcoin opera abaixo de US$ 61 mil no spot

O preço, contudo, segue ditando o tom. O Bitcoin é negociado nesta quinta-feira a US$ 60.722,68, ou cerca de R$ 311.541, com queda de 5% em 24 horas. O nível derrubou alavancagem em corretoras e ampliou a perda contábil da Strategy para além dos US$ 10 bilhões reportados no manifesto. A pressão vendedora aparece também nos fluxos institucionais — o ETF de Bitcoin encadeou 12 dias de saques no início de junho.

Para o investidor brasileiro, o episódio acende dois alertas. O primeiro é regulatório: a CVM já sinalizou preocupação com tesourarias corporativas concentradas em cripto, e o caso Strategy se torna referência prática quando o tema chega ao colegiado. O segundo é de mercado: empresas listadas em B3 que estudam alocação em Bitcoin via fundos locais agora têm um benchmark negativo concreto para discutir com conselhos de administração.

Assim, há ainda o efeito sobre exchanges nacionais. A correlação histórica entre o preço do BTC e o volume diário negociado em corretoras brasileiras tende a se inverter em momentos de queda forte — traders aumentam giro, mas o ticket médio cai. Plataformas como Mercado Bitcoin e Foxbit costumam registrar picos de cadastros nesses períodos, repetindo o padrão visto em correções anteriores.

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Sou jornalista com mais de 20 anos de trajetória, dedicando a última década exclusivamente ao mercado de criptomoedas e ativos digitais. Minha formação acadêmica inclui o bacharelado em Jornalismo pela FACCAMP e uma pós-graduação em Globalização e Cultura, o que me permite analisar o ecossistema cripto sob uma ótica macroeconômica e social. Ao longo da minha carreira, tive o privilégio de entrevistar figuras centrais da história contemporânea e da tecnologia, como Adam Back, Bill Clinton e Henrique Meirelles. Além da atuação na linha de frente da informação, acompanhei de perto as discussões que moldam o sistema financeiro global em fóruns multilaterais de alto nível, como o G20 e o FMI. Decidi migrar do setor público para o mercado de blockchain por convicção: acredito no potencial técnico e disruptivo dessa tecnologia para redesenhar o futuro da economia digital. Hoje, utilizo minha experiência para traduzir a complexidade deste mercado com rigor jornalístico e visão estratégica.
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