- 196 milhões de ações da SpaceX estão vendidas, 31% do float livre
- Cada US$ 1 de variação move US$ 200 milhões no book vendido
- Custo de aluguel a 1% mantém urso confortável mas alimenta squeeze
A SpaceX virou o experimento mais ruidoso de Wall Street em 2026. Menos de um mês depois da estreia na Nasdaq sob o ticker SPCX, a companhia de Elon Musk acumula 196 milhões de ações vendidas a descoberto, o equivalente a 31% do float livre, segundo dados da Ortex divulgados pela Reuters. É um dos maiores short interests já registrados numa empresa recém-listada, e a matemática por trás dele deveria interessar a qualquer investidor cripto acostumado a alavancagem o efeito é parecido, só que em ações.
Pulo de 13% para 31% em uma semana
Uma semana antes, o quadro era outro. O short interest somava cerca de 83 milhões de ações, ou 13% do float, número compatível com uma IPO badalada. Em poucos dias, mais que dobrou. Peter Hillerberg, cofundador da Ortex, chamou o movimento de “extraordinário para uma ação com menos de um mês de vida pública”.
A tese vendida se escreve sozinha. A SpaceX estreou em 12 de junho de 2026 avaliada em US$ 1,2 trilhão, com receita ainda concentrada em lançamentos da Falcon e assinaturas do Starlink. Para justificar esse múltiplo, o crescimento precisa ser agressivo por vários anos. Quando o papel caiu até 23% após o IPO e tocou a mínima perto de US$ 153, os vendidos chegaram a US$ 2,5 bilhões de lucro no papel.
Cada dólar move US$ 200 milhões no book
Aí veio a recuperação e o cenário virou. A Ortex estima que os vendedores acumulam agora prejuízo marcado a mercado de US$ 760 milhões desde a estreia. O ponto mecânico é o que salta aos olhos, cada US$ 1 de oscilação no preço da SPCX equivale a cerca de US$ 200 milhões em ganho ou perda para o conjunto dos vendidos.
O detalhe que amplifica o risco é o custo de aluguel próximo de 1% ao ano, baixíssimo para uma ação tão concorrida no short. Aluguel barato significa que o urso não está sendo empurrado para fora da posição pelo carrego. Ele pode esperar. Mas esperar só funciona se a ação obedecer. Se a SPCX seguir apreciando, o próprio tamanho do short interest vira acelerante.
A ação abriu o pregão de 12 de junho a US$ 160,95, fechou 30 de junho a US$ 170,86 alta de 9,45% em uma semana e recuou para US$ 157 em 1º de julho. A Polymarket precificava em 95% a chance de queda no fechamento daquele dia e em 75% a probabilidade de a semana terminar acima de US$ 150.
Por que o investidor cripto deve observar
Para o investidor brasileiro, o caso SPCX importa por dois motivos. Primeiro, Musk é figura central em movimentos de risco que arrastam o Bitcoin de posts sobre Dogecoin ao balanço da Tesla em BTC. Segundo, um short squeeze de US$ 200 milhões por dólar tem potencial de contaminar o apetite por ativos especulativos como um todo, incluindo a cotação do Bitcoin, que voltou aos US$ 61.650 nesta quinta-feira.
Há um paralelo direto com o mundo cripto. Quando a alavancagem some do mercado, movimentos pequenos deixam de gerar liquidações em cascata. Aqui é o oposto, liquidez baixa, aluguel barato e concentração vendida criam um estopim. Musk, aliás, colecionou brigas públicas com short sellers ao longo da trajetória da Tesla variável que nenhum modelo bearish consegue capturar.
Lockup e 94% de Musk são a carta marcada
O próximo gatilho real é o fim do período de lockup. Jim Cramer lembrou que Musk mantém controle “blindado” sobre a SpaceX via 94% das ações Classe B, cada uma com 10 votos. Enquanto o lockup não expira, o float negociável segue restrito e é justamente essa restrição que faz cada dólar de movimento pesar tanto no P&L dos vendidos. A Starlink opera hoje aproximadamente 9.600 satélites em 164 países, com Falcon acima de 99% de sucesso em missões, segundo dados divulgados pela própria SpaceX. Não garante squeeze, mas garante que existe negócio real por baixo do fogo cruzado.
