Bancos centrais declaram guerra a US$ 315 bilhões em stablecoins

  • BIS eleva tom sobre risco sistêmico de US$ 315 bilhões em stablecoins
  • Bancos podem perder US$ 500 bilhões em depósitos até 2028 nos EUA
  • Europa divide-se entre bloquear e criar própria stablecoin do euro

O Bank for International Settlements (BIS) abandonou o discurso cauteloso sobre stablecoins. Pablo Hernandez de Cos, diretor-geral da instituição conhecida como o “banco central dos bancos centrais”, pediu cooperação global urgente em 20 de abril, classificando o tema como “criticamente importante”.

A mudança de tom reflete uma realidade inescapável, US$ 315 bilhões em stablecoins circulam globalmente, com Tether (USDT) e Circle (USDC) controlando 85% desse mercado. Projeções do Citi indicam que esse valor pode alcançar US$ 1,9 trilhão até 2030 no cenário conservador, ou até US$ 4 trilhões em casos de alta adoção.

De Cos alertou sobre três riscos principais, corridas bancárias que podem desestabilizar mercados de Treasuries, aceleração da dolarização em economias emergentes e arbitragem regulatória entre jurisdições. A linguagem mudou não se trata mais de proteger investidores, mas de conter risco sistêmico.

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Drenagem de depósitos preocupa Fed e bancos americanos

O lobby bancário americano estima que stablecoins podem extrair US$ 500 bilhões em depósitos até 2028. Quando consumidores trocam contas bancárias por carteiras digitais com tokens pareados ao dólar, os bancos perdem mais que dinheiro, perdem dados de transações, receita de taxas e relacionamento com clientes.

O Federal Reserve identificou uma complicação adicional em nota de março de 2026, um setor de stablecoins grande o suficiente pode enfraquecer a transmissão da política monetária. As ferramentas do Fed operam através dos bancos. Uma rede paralela que os contorna reduz o alcance dessas medidas sobre a economia real.

Para o Banco Central Europeu (BCE), a preocupação tem três camadas. Modelagens de novembro de 2025 simularam o impacto de US$ 2 trilhões em stablecoins sobre a estabilidade financeira europeia. A conclusão: nessa escala, tokens digitais se tornam canal direto de transmissão de estresse financeiro americano para bancos europeus, além de drenar depósitos e receitas do sistema bancário local.

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Dolarização digital atinge países emergentes

O Standard Chartered projeta que bancos em mercados emergentes podem perder até US$ 1 trilhão em depósitos para stablecoins. O fenômeno já é visível em Nigéria, Argentina e Turquia, onde famílias usam tokens pareados ao dólar para proteger poupanças de moedas locais em desvalorização.

Essas transações contornam taxas de câmbio oficiais e sistemas bancários domésticos. O FMI descreveu stablecoins como “a borda digital do sistema dólar” uma definição que captura tanto a utilidade quanto a ameaça estrutural. Tokens privados estendem a dominância do dólar mais rápido que o sistema eurodólar tradicional, sem mecanismos práticos para bancos centrais menores controlarem o fluxo.

De Cos destacou que stablecoins facilitam a evasão de controles de capital, gerando entradas maiores em períodos estáveis e fugas mais rápidas durante crises. Para economias já vulneráveis à volatilidade cambial, a adoção em massa de stablecoins representa uma perda adicional de soberania monetária.

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Europa dividida entre bloquear e competir

A resposta europeia expõe contradições profundas. Roland Lescure, ministro das Finanças da França, chamou o volume atual de stablecoins em euro de “insatisfatório” em 17 de abril. Ele endossou o Qivalis, consórcio de bancos europeus incluindo ING, UniCredit e BNP Paribas, que desenvolve uma stablecoin denominada em euro.

Ao mesmo tempo, Denis Beau, vice-governador do Banque de France, pede restrições mais duras sob a regulação MiCA para stablecoins não-euro usadas em pagamentos cotidianos. A Europa executa duas estratégias opostas, quer a eficiência do dinheiro tokenizado, mas rejeita o controle por emissores privados.

A tensão reflete um dilema maior. Se tokens digitais em dólar se tornarem a infraestrutura padrão para pagamentos globais, uma Europa que bloqueou desenvolvimento doméstico de stablecoins acabará dependente de trilhos americanos de qualquer forma. Por isso Lescure também urgiu bancos europeus a explorarem depósitos tokenizados, enquadrando a iniciativa como defesa da “soberania de pagamentos europeia”.

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A batalha real não é sobre tecnologia, mas controle. Como reguladores classificarão stablecoins utilidades de pagamento, substitutos de depósitos ou produtos do mercado monetário sombra determinará quanto do sistema monetário emissores privados poderão absorver. Essa reclassificação acontece agora, e o resultado moldará como o dinheiro se move na próxima década.

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Entusiasta de criptomoedas e tecnologia. Sempre explorando novas tecnologias inovadoras. Nos momentos livres, gosto de jogar e assistir futebol.
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