Fed dá nota máxima a 99% dos bancos e ignora cripto

  • Mais de 99% dos bancos dos EUA são classificados como bem capitalizados pelo Fed
  • Depósitos agregados atingem recorde de US$ 18,3 trilhões em agosto de 2025
  • Relatório semestral não menciona cripto, stablecoins ou ativos digitais

O Federal Reserve publicou em 1º de dezembro o relatório semestral de Supervisão e Regulação, com fotografia do sistema bancário americano até o meio de 2025. O número de destaque é confortável: mais de 99% dos bancos dos Estados Unidos estavam classificados como bem capitalizados no segundo trimestre. Além disso, os depósitos agregados bateram recorde histórico de US$ 18,3 trilhões em agosto.

Para quem acompanha cripto, porém, o ponto mais relevante não está nas tabelas. Está no que ficou de fora. O documento não cita uma única vez palavras como criptomoeda, ativos digitais, stablecoin ou tokenização. Silêncio total sobre o setor.

Capital e liquidez em níveis confortáveis

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

O índice CET1, que mede capital principal sobre ativos ponderados pelo risco, ficou em torno de 13% tanto em bancos grandes quanto em instituições menores. Na prática, cada US$ 100 em ativos de risco é coberto por aproximadamente US$ 13 de capital de altíssima qualidade.

A liquidez seguiu o mesmo padrão. Os bancos sujeitos ao Liquidity Coverage Ratio — regra pós-2008 que obriga reserva suficiente para sobreviver a 30 dias de estresse — operam bem acima do piso regulatório. Além disso, o recorde de depósitos também encerra, ao menos por ora, a discussão sobre fuga de recursos que dominou o debate após o colapso do Silicon Valley Bank em 2023.

Há ainda uma mudança de tom na própria postura do supervisor. O Fed sinaliza migração do foco de conformidade procedural para riscos financeiros centrais. Ele promete mais transparência nos critérios de rating das instituições. É uma reorientação que se conecta a outras decisões recentes de Washington. Ou seja, há um movimento em direção a uma supervisão mais baseada em risco real do que em checklist regulatório.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Ausência de cripto no documento central

A omissão do tema cripto cabe em duas leituras possíveis — e ambas importam para investidores. A primeira é técnica: o Fed parece tratar cripto como pauta de desenvolvimento de política, não como risco sistêmico capaz de comprometer a saúde dos bancos. A segunda é institucional. As discussões sobre stablecoins e custódia de ativos digitais nos EUA seguem em trilhos separados. Elas estão ligadas ao CLARITY Act e ao GENIUS Act, e não dentro do guarda-chuva da supervisão bancária tradicional.

Isso contrasta com o que se vê do outro lado do Atlântico. Reguladores europeus já incorporaram explicitamente o risco de stablecoins em relatórios de estabilidade financeira. Além disso, o NYDFS firmou acordo com a EBA para fiscalização cruzada de um setor estimado em US$ 314 bilhões. Em Washington, o tom ainda é de separação de competências.

Assim, para os próximos seis meses, dois pontos merecem atenção. O primeiro é se a edição seguinte do relatório passa a tratar ativos digitais como categoria de risco supervisionada, especialmente após avanços legislativos sobre stablecoins lastreadas em dólar.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Além disso, o segundo ponto é a evolução dos quadros regulatórios paralelos. É ali, longe das tabelas de CET1, que estão sendo definidas as regras práticas para custódia institucional, tokenização e emissão privada de moeda digital nos Estados Unidos.

Compartilhe este artigo
Sou jornalista com mais de 20 anos de trajetória, dedicando a última década exclusivamente ao mercado de criptomoedas e ativos digitais. Minha formação acadêmica inclui o bacharelado em Jornalismo pela FACCAMP e uma pós-graduação em Globalização e Cultura, o que me permite analisar o ecossistema cripto sob uma ótica macroeconômica e social. Ao longo da minha carreira, tive o privilégio de entrevistar figuras centrais da história contemporânea e da tecnologia, como Adam Back, Bill Clinton e Henrique Meirelles. Além da atuação na linha de frente da informação, acompanhei de perto as discussões que moldam o sistema financeiro global em fóruns multilaterais de alto nível, como o G20 e o FMI. Decidi migrar do setor público para o mercado de blockchain por convicção: acredito no potencial técnico e disruptivo dessa tecnologia para redesenhar o futuro da economia digital. Hoje, utilizo minha experiência para traduzir a complexidade deste mercado com rigor jornalístico e visão estratégica.
Sair da versão mobile