- Irã arrecada entre US$ 1,5 milhões e US$ 2 milhões por navio que cruza Hormuz
- Parte dos pagamentos é liquidada em USDT, segundo deputado iraniano
- OFAC alerta operadoras marítimas sobre risco de sanções secundárias
O Irã transformou o Estreito de Hormuz em um pedágio cobrado em dólar digital. Autoridades de Teerã afirmam arrecadar entre US$ 1,5 milhão e US$ 2 milhões por embarcação que atravessa a passagem, e parte do valor está sendo liquidada em USDT, a maior stablecoin do mercado. A confirmação veio de Mohsen Zanganeh, membro do comitê de orçamento do parlamento iraniano.
O dado tem peso geopolítico óbvio. O estreito concentra cerca de 25% do tráfego mundial de petróleo bruto e é o principal corredor logístico para exportações do Golfo Pérsico. Cada navio do tipo VLCC (Very Large Crude Carrier) pode transportar até 2 milhões de barris o que ajuda a justificar o tíquete cobrado por travessia.
Segundo Zanganeh, os recursos arrecadados foram integralmente depositados no tesouro nacional, em conformidade com a lei orçamentária iraniana. O modelo de cobrança em cripto não é inédito no país, mas atinge agora uma escala que chamou a atenção de reguladores ocidentais e analistas on-chain.
Primeiro pedágio estatal pago em cripto
A consultoria Chainalysis classificou o caso como um marco. Em análise divulgada anteriormente, a empresa afirmou tratar-se da “primeira instância conhecida de um Estado-nação exigindo criptomoeda como pagamento pela travessia de uma hidrovia internacional”. Além do USDT, há registros de uso de Bitcoin nas operações.
A escolha do Tether não é casual. A stablecoin opera 24 horas, liquida em minutos e dispensa intermediação bancária atributos críticos para um país que enfrenta sanções dos Estados Unidos desde 2018 e tem acesso restrito ao sistema SWIFT. O Office of Foreign Assets Control (OFAC) já alertou que firmas marítimas podem enfrentar sanções secundárias caso interajam com entidades iranianas bloqueadas “por operar ou apoiar o setor financeiro sancionado do Irã”.
Apesar do bloqueio, o Comando Central dos EUA (CENTCOM) teria escoltado pelo menos 70 navios comerciais pelo estreito nas últimas semanas. Se o Irã mantiver a política de pedágio mesmo após o fim do conflito, embolsaria o equivalente a cem embarcações para cada ciclo de cobrança algo entre US$ 150 milhões e US$ 200 milhões em arrecadação adicional.
Tether sob pressão de compliance
O episódio recoloca a Tether no centro de um debate antigo: até que ponto a emissora consegue ou quer bloquear endereços ligados a regimes sancionados. A empresa tem capacidade técnica de congelar USDT em qualquer carteira na blockchain Tron ou Ethereum, e historicamente o fez a pedido de autoridades americanas. O uso da stablecoin como instrumento de arrecadação estatal pelo Irã pressiona esse compromisso.
Para o investidor brasileiro, o caso importa por dois motivos. O primeiro é regulatório, o Banco Central do Brasil finaliza o marco para prestadoras de serviços de ativos virtuais, e o uso geopolítico de stablecoins reforça argumentos por travel rule e identificação de contrapartes em operações internacionais. O segundo é de mercado o USDT segue como principal porta de entrada e saída de exchanges brasileiras como Mercado Bitcoin e Foxbit, respondendo por parte relevante do volume diário em pares com real.
Mísseis em Hormuz já derrubaram cripto
A escalada militar no estreito tem efeito direto sobre os preços de criptoativos. Em junho, ataques iranianos na região liquidaram US$ 700 milhões em posições alavancadas e empurraram o Bitcoin para mínimas do ano. Nesta sessão, o BTC opera a US$ 63.240, em alta de 4% nas últimas 24 horas, enquanto o ETH sobe 7,8%, cotado a US$ 1.686.
A dimensão da arrecadação iraniana em stablecoins ainda é pequena diante do volume diário do USDT, que ultrapassa US$ 50 bilhões. Mas o precedente político é o que preocupa Washington: se Hormuz funciona como pedágio cripto, outros pontos estratégicos podem replicar o modelo. O Tesouro americano avalia restringir stablecoins em jurisdições sancionadas, conforme documentos divulgados pela OFAC em 2026.
