- Trump assina duas ordens executivas para acelerar computação quântica nos EUA
- Agências de inteligência avaliarão transição para criptografia pós-quântica
- Bitcoin, Ethereum e Algorand já discutem proteções contra o chamado Q-Day
O presidente Donald Trump assinou duas ordens executivas para acelerar o desenvolvimento de computação quântica nos Estados Unidos e preparar agências federais para os riscos que máquinas quânticas avançadas podem trazer à criptografia atual. A medida coloca o governo americano em rota direta com um debate que há anos inquieta o setor cripto, o chamado Q-Day.
Os textos foram assinados em 22 de junho. Segundo a Casa Branca, o objetivo é reforçar a liderança americana em tecnologias quânticas, área considerada estratégica para computação, comunicações e cibersegurança. Trump afirmou que o setor terá impacto direto sobre crescimento econômico, pesquisa científica e segurança nacional.
A primeira ordem, identificada como Executive Order 14411, cria a iniciativa Quantum Computer for Application Development and Discovery Science (QC-ADDS). O Departamento de Energia tem 90 dias para definir os requisitos técnicos de um computador quântico avançado e trabalhar na instalação de pelo menos um sistema desse porte em laboratório federal.
Já o Departamento de Comércio ficou encarregado de criar mecanismos para envolver empresas privadas do setor. Outras agências, entre elas NASA, National Science Foundation e o próprio Departamento de Energia, terão de apresentar planos quinquenais para sensoriamento e redes quânticas. As ordens também tratam de cadeias produtivas domésticas, formação de mão de obra e proteção de pesquisas sensíveis.
Agências de inteligência vão mapear risco cripto
O ponto que mais interessa ao mercado de criptoativos está na segunda ordem. Ela determina que agências de inteligência avaliem como computadores quânticos comerciais cada vez mais potentes podem ameaçar a segurança nacional, incluindo a transição para a chamada criptografia pós-quântica.
O Q-Day descreve o momento hipotético em que máquinas quânticas conseguiriam quebrar os sistemas criptográficos que hoje protegem redes financeiras, infraestrutura governamental e carteiras de blockchain. Nenhum equipamento atual chega perto dessa capacidade, mas formuladores de política e criptógrafos vêm pedindo planejamento antecipado.
Um relatório recente do conselho consultivo independente da Coinbase, formado por especialistas em criptografia, defende que a comunidade Bitcoin comece a desenhar agora um caminho de migração para padrões resistentes a quântica. O documento aponta que a incerteza sobre o ritmo dos avanços tecnológicos já justifica preparação antecipada.
Para o investidor brasileiro, o tema soma-se a outra discussão regulatória em curso nos EUA. O CLARITY Act, que disputa espaço no Senado americano, tenta organizar a estrutura de competências entre SEC e CFTC. Uma eventual padronização de exigências de segurança pós-quântica em ativos digitais pode entrar nesse pacote nos próximos anos, influenciando custodiantes globais que atendem exchanges como Mercado Bitcoin e Foxbit.
CZ propõe prazo de migração para Bitcoin
O debate dentro do ecossistema cripto ganhou tração nos últimos dias. Changpeng Zhao, fundador da Binance, sugeriu um período de migração obrigatório para detentores de Bitcoin caso o protocolo adote criptografia resistente a quântica. Pelo argumento de CZ, endereços antigos vulneráveis não deveriam ficar expostos por tempo indeterminado, embora qualquer alteração precise de consenso da comunidade.
No campo do Ethereum, pesquisadores ligados ao projeto de privacidade Kohaku, da Ethereum Foundation, defendem que contas já comecem a adotar proteções pós-quânticas sem esperar por um hard fork. A ideia é embutir as defesas via lógica de smart contract no nível da carteira, enquanto as atualizações de protocolo seguem sendo estudadas. O movimento se conecta às iniciativas de pesquisa descritas pelo braço institucional do Ethereum capitaneado por Joe Lubin.
A Algorand Foundation foi mais longe e publicou um roadmap para tornar sua rede layer-1 plenamente quântica-resistente até o fim de 2027. O escopo cobre contas de usuário, carteiras, ferramentas de desenvolvedor, infraestrutura de staking e o próprio mecanismo de consenso.
Bitcoin segue acima de US$ 63 mil durante anúncio
No mercado, a reação imediata foi morna. O Bitcoin opera perto de US$ 63.840, equivalente a cerca de R$ 329 mil, com leve alta de 0,5% em 24 horas. O Ethereum está em US$ 1.724, também no positivo. Já o debate sobre carteiras antigas de Satoshi ganha nova camada com a discussão quântica, já que esses endereços usam padrões mais antigos e são vistos como os mais expostos a um eventual Q-Day.
