- Operação Cazador apreendeu 4 mil ASICs em galpão de Maracay no dia 18 de maio
- Instalação consumia entre 8 e 10 megawatts em meio a colapso elétrico venezuelano
- Demanda de pico no país atingiu 15.579 MW, maior nível em nove anos
O governo venezuelano executou a maior apreensão recente de equipamentos de mineração no país. Cerca de 4.000 máquinas ASIC dedicadas à produção de bitcoin foram confiscadas em uma única operação na Zona Industrial San Vicente, em Maracay, capital do estado de Aragua.
A ação, batizada de Operação Cazador, ocorreu em 18 de maio. Foi a resposta mais agressiva desde que o regime reiterou, em 7 de maio, a proibição nacional contra a mineração digital considerada irregular.
Como foi a operação
Os agentes não levaram apenas os equipamentos de mineração. Também foram apreendidos sistemas industriais de refrigeração e ventilação que mantinham o galpão operacional 24 horas por dia. A estrutura tinha porte de armazém logístico.
A força-tarefa reuniu o CICPC, polícia de investigações criminais da Venezuela, e unidades militares como REDI Central e ZODI Aragua. O Ministério da Energia Elétrica enviou representantes ao local, incluindo a vice-ministra Vianney Rojas. Estimativas oficiais apontam consumo entre 8 e 10 megawatts só nessa instalação energia suficiente para abastecer pequenas cidades do interior venezuelano.
Crise elétrica pressiona o governo
A rede elétrica venezuelana opera no limite. A demanda de pico recentemente bateu 15.579 MW, o maior patamar em nove anos. Décadas de subinvestimento, manutenção precária e êxodo de engenheiros qualificados deixaram o sistema vulnerável a apagões recorrentes.
Nesse cenário, fazendas de mineração viraram alvo prioritário. Cada operação clandestina representa carga adicional sobre uma rede que já não dá conta do consumo residencial e industrial básico. A retórica oficial trata os mineradores como saboteadores energéticos narrativa conveniente para um governo que precisa de bodes expiatórios para os apagões.
A proibição de 7 de maio não inaugurou nenhuma política. Caracas alterna tolerância e repressão à mineração há anos, com desmonte sistemático de instalações desde 2023. O próprio Estado já tentou entrar no jogo cripto com o Petro, lançado em 2018 e enterrado em 2024 após fracasso completo. A diferença atual está na urgência: o pico de nove anos na demanda dá cobertura política para aplicar a lei sem oposição interna.
O que acontece com os equipamentos apreendidos
Autoridades venezuelanas ainda não disseram o destino das 4.000 máquinas. As possibilidades são três: destruição, leilão público ou realocação para entidades estatais. Em outros países que fizeram apreensões semelhantes, parte do hardware foi reaproveitada por órgãos governamentais uma espécie de nacionalização disfarçada do hash rate.
O Cazaquistão seguiu trilha parecida em 2022, quando crise energética levou o governo a fechar mineradoras e absorver equipamentos. O Irã, outro país com gargalo elétrico crônico, alterna apreensões com licenças oficiais a mineradores estatais. A Venezuela tem histórico de seguir esse manual.
O que muda para o investidor brasileiro
O efeito direto no preço do bitcoin é praticamente nulo. Mesmo 4.000 ASICs representam fração marginal do hash rate global, que opera acima de 700 EH/s. Mas o caso reforça uma leitura estrutural relevante: países com infraestrutura elétrica deficitária tendem a expulsar mineração quando a conta não fecha.
Para o Brasil, o contraste é instrutivo. Operações brasileiras, ainda incipientes diante de gigantes como EUA e Rússia, dependem da estabilidade do setor elétrico e da clareza regulatória da CVM e do Banco Central. Enquanto o setor de mineração corporativa avança nos EUA com empresas como MARA e Riot, mercados emergentes seguem reféns da fragilidade energética. O episódio venezuelano é lembrete de que mineração cripto continua sendo, na prática, uma operação intensiva em energia barata e regulação favorável e qualquer país que não ofereça ambos vira inóspito ao setor.
O contexto também conecta com a estratégia de longo prazo de grandes detentores. A acumulação corporativa de BTC avança em paralelo à pressão sobre mineradores em jurisdições hostis, redesenhando o mapa global da produção do ativo. Vale acompanhar também o impacto sobre empresas de mineração listadas, que passam a operar em ambiente regulatório cada vez mais polarizado.
