- William Mougayar diz que Ethereum Foundation atua como guardiã do protocolo, não como agência de marketing
- Fundação vendeu cerca de US$ 47 milhões em ETH para BitMine em poucas semanas
- ETH é negociado a US$ 2.117 e acumula queda de 57% desde a máxima histórica
A pressão sobre a Ethereum Foundation ganhou um contraponto público nesta semana. O pesquisador e investidor canadense William Mougayar, autor de livros sobre blockchain, publicou no X um texto intitulado “Leave the Foundation Alone” defendendo a entidade dos ataques recentes da comunidade cripto. Para ele, a fundação está fazendo “exatamente” o que foi desenhada para fazer — e os críticos é que insistem em entender errado.
O argumento central de Mougayar separa três coisas que o mercado costuma misturar. O ETH é o ativo monetário. A rede Ethereum é a infraestrutura de computação compartilhada. E a Ethereum Foundation é uma organização sem fins lucrativos cujo trabalho é guiar o protocolo até se tornar dispensável. Confundir os três, escreveu ele, gera previsões ruins e raiva mal endereçada.
A defesa chega num momento sensível. Nos últimos meses, a fundação acumulou acusações de prejudicar o preço do ETH com vendas em OTC, retiradas de staking e silêncio público diante da pressão dos detentores. A crítica ganhou tração à medida que o token despencou da máxima histórica.
O caminho da subtração
Mougayar descreve a estratégia da fundação como um “caminho de subtração”. A ideia é que a entidade trabalhe para se tornar cada vez menos central à rede ao longo do tempo. “Está endurecendo o protocolo para que o mundo não precise tanto dela. Está entregando upgrades. Está financiando a pesquisa que ninguém mais financia”, afirmou.
Ele compara as cobranças a expectativas equivocadas sobre o papel de uma fundação técnica. Esperar que a Ethereum Foundation faça marketing do ETH ou corra atrás de investidores institucionais, segundo o pesquisador, seria como exigir que o IETF — organização que padroniza protocolos de internet — comprasse anúncio no Super Bowl para promover o TCP/IP. A analogia ataca diretamente a tese de que a fundação deveria operar como um departamento comercial.
Para o investidor brasileiro, esse debate importa porque define quem responde pela cotação. Se a fundação não atua como market maker, qualquer expectativa de “resgate” institucional ao preço se dilui. Sobra o fluxo de ETFs, balanço corporativo de empresas como BitMine e demanda orgânica de DeFi e staking.
Vendas e unstaking no radar
O pano de fundo das críticas envolve movimentações concretas de tesouraria. Neste mês, a fundação concluiu sua terceira venda OTC para a BitMine Immersion Technologies, repassando 10 mil ETH a um preço médio de US$ 2.292 — operação avaliada em US$ 22,9 milhões. Somadas às duas anteriores, de 5 mil e 10 mil ETH, as transações com a BitMine já chegam a aproximadamente US$ 47 milhões.
As vendas vieram logo depois de a fundação retirar 17.035 ETH do staking, cerca de US$ 40 milhões, e desfazer outra posição de 21.270 ETH na Lido, próxima de US$ 50 milhões. A sequência reabasteceu o caixa em dólar e disparou questionamentos sobre timing, já que ocorreu enquanto o ativo perdia força. O post de Mougayar tenta justamente reenquadrar essas decisões como gestão financeira ordinária, não como sinal bearish.
Contexto de preço e leitura local
O ETH é negociado a US$ 2.117,09, com alta de 4,67% em 24 horas, segundo o CoinMarketCap. Ainda assim, o token está mais de 57% abaixo do topo histórico de US$ 4.953 registrado em agosto do ano passado. Convertido a um câmbio próximo de R$ 5,40, o ativo opera ao redor de R$ 11.430 — patamar que pune quem entrou nos picos de 2024 nas exchanges brasileiras.
A discussão tem paralelo com episódios anteriores no ecossistema. Quando a Cardano Foundation enfrentou pressão por uso de tesouraria, o debate seguiu trajeto parecido: comunidade exigindo postura comercial, fundação alegando mandato técnico. No caso brasileiro, a leitura é prática — fundos locais que estruturam exposição a ETH via produtos como o fluxo de baleias precisam considerar que a fundação não vai segurar preço. Quem aposta em cenários macro para o Ethereum deve modelar a demanda institucional sem contar com suporte da entidade emissora original.
O recado de Mougayar, no fim, é menos sobre defender pessoas e mais sobre realinhar expectativas. Uma rede que se diz descentralizada não pode depender de um “rei” — nem para upgrades, nem para preço.
