- Aave sofreu saque de US$ 8,45 bilhões em 48 horas após exploit na KelpDAO
- Stani Kulechov aportou 5 mil ETH pessoais e DAO destinou outros 25 mil
- LlamaRisk estima US$ 123,7 milhões em dívida ruim no Aave V3
O fundador do Aave, Stani Kulechov, voltou a defender o protocolo de empréstimos descentralizados após a maior corrida bancária já registrada em DeFi. Em 48 horas, usuários sacaram cerca de US$ 8,45 bilhões em depósitos, num efeito-cascata disparado pelo exploit da ponte da KelpDAO em abril.
A fala aconteceu na conferência Proof of Talk, em Paris. Kulechov afirmou que o Aave V3 seguiu operando durante todo o estresse, mesmo com a liquidez sangrando em ritmo recorde.
“O Aave foi realmente resiliente em tempos turbulentos”, disse o executivo, segundo registros do evento divulgados em publicação no X.
O gatilho da crise não foi uma falha no código do próprio Aave. Pesquisadores de segurança rastrearam o ataque até um esquema de RPC-spoofing combinado com DDoS contra nós verificadores da LayerZero ligados à KelpDAO. O dano, porém, transbordou rapidamente para o ecossistema, e o Aave virou epicentro da fuga de capital por concentrar boa parte do colateral wrapped da rede.
DAO e Kulechov injetam 30 mil ETH de emergência
A resposta combinou intervenção comunitária e aporte pessoal. A Aave DAO aprovou um pacote emergencial de 25 mil ETH para sustentar a liquidez do protocolo. Kulechov colocou outros 5 mil ETH do próprio bolso algo em torno de US$ 8,4 milhões à época do depósito.
Em sua argumentação, o fundador separou duas categorias de risco. De um lado, falhas em infraestrutura de suporte, como pontes e oráculos. De outro, vulnerabilidades nos contratos inteligentes dos próprios aplicativos DeFi. Para ele, a segurança nos contratos centrais dos grandes protocolos avançou, e a ameaça hoje vem cada vez mais de dependências externas.
A leitura, no entanto, não é consenso. A LlamaRisk, especializada em modelagem de risco on-chain, documentou que atacantes usaram a brecha da KelpDAO para criar colateral sintético sem valor e depositá-lo no Aave antes de sacar ETH wrapped legítimo. O resultado deixou o Aave V3 com aproximadamente US$ 123,7 milhões em dívida ruim. Já o Bank Policy Institute classificou o episódio como uma demonstração prática de como saques em escala podem replicar corridas bancárias tradicionais dentro do DeFi.
V4 promete isolar colateral problemático
Kulechov reconheceu que a arquitetura interconectada do DeFi cria um tipo novo de risco sistêmico. A resposta técnica do time vem com o Aave V4, que substitui o modelo tradicional de pool único por um framework hub-and-spoke modular. Na prática, a plataforma poderá aplicar prêmios de risco localizados e isolar colaterais problemáticos antes da contaminação se espalhar.
O timing dialoga com outro debate aberto no setor o de governança de protocolos sob estresse. Casos recentes mostram que mesmo redes consolidadas enfrentam fragilidade em momentos de pânico, tema que o BitNotícias detalhou na análise sobre risco de governança em redes proof-of-stake. Para o investidor brasileiro exposto a yield em DeFi via exchanges locais que tokenizam estratégias, o episódio do Aave reforça a necessidade de auditar não apenas o contrato principal, mas a cadeia inteira de dependências.
Aave Labs acelera licenças na Europa
No plano regulatório, o grupo segue avançando em jurisdições onde DeFi e finanças tradicionais começam a se sobrepor. As subsidiárias Push Labs Limited e Push Virtual Assets Limited receberam, no mês passado, autorização da FCA do Reino Unido para operar como provedores registrados de exchange de criptoativos. As novas licenças se somam à autorização como Instituição de Moeda Eletrônica e à habilitação MiCA obtida na União Europeia em novembro de 2025.
O Ethereum negocia hoje em US$ 1.711, com leve alta de 3,7% em 24 horas, segundo dados do mercado spot. A cotação atual coloca o aporte original de 30 mil ETH feito pelo Aave em aproximadamente US$ 50,6 milhões quase o dobro do valor de mercado registrado no momento da injeção emergencial, o que aliviou parte do custo financeiro da operação.