Ações de empresas americanas estão roubando capital do Bitcoin

  • Índice de Dispersão da CBOE atingiu 42, 3ª maior leitura histórica
  • ETFs de Bitcoin acumulam US$ 3,4 bilhões em saídas em 11 pregões
  • Binance vê recuperação possível em até duas semanas sem crise cripto

A queda do Bitcoin abaixo de US$ 70 mil tem uma explicação que vai além das saídas em ETFs e da movimentação da Mt. Gox. Para a área de pesquisa da Binance, o problema é mais estrutural. O capital global está sendo sugado por um grupo restrito de setores da bolsa americana. A maior criptomoeda do mundo virou vítima colateral dessa concentração.

Em relatório divulgado nesta semana, a Binance Research aponta que o CBOE Dispersion Index atingiu 42 pontos — a terceira maior leitura já registrada. O indicador mede a concentração de retorno dentro do S&P 500. Quando ele dispara, significa que poucos temas estão capturando quase todo o fluxo de investimento, deixando o restante do mercado, inclusive ativos de risco como o Bitcoin, sem oxigênio.

Assim, os vencedores do momento são conhecidos: infraestrutura de inteligência artificial, semicondutores, empresas de defesa, energia e commodities. Enquanto o BTC negocia perto de US$ 67.193 (cerca de R$ 337,6 mil), segundo cotação desta terça-feira, ações ligadas a IA seguem batendo recordes. Além disso, esse movimento também já influenciou a Berkshire Hathaway. A empresa concentrou mais de um quarto do portfólio em três papéis do setor.

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O “buraco negro” de capital

Assim, a pesquisa da Binance descreve o fenômeno como um “buraco negro de capital”. Quando algumas teses geram retornos extraordinários, elas atraem fluxo de forma desproporcional. Isso reduz a liquidez disponível para alternativas. O Bitcoin, historicamente, sofre nesses períodos.

O relatório lista episódios anteriores. Em 2015, o BTC caiu cerca de 20% durante a rotação para FAANGs e biotecnologia. Em 2016, perdeu 18% em movimento defensivo. O tombo de 68% em 2018 combinou a última pernada das FAANGs com o colapso dos ICOs. E a queda de aproximadamente 50% em 2022 coincidiu com o rali das ações de energia em meio à guerra na Ucrânia.

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Mais recentemente, a desvalorização de US$ 115 mil para US$ 71 mil no fim de 2025 foi associada pela Binance à corrida por papéis de IA e semicondutores. Além disso, no trimestre atual, o Bitcoin acumula recuo de cerca de 11%. Defesa, energia e IA seguem atraindo capital.

Pressão cripto e macro no curto prazo

O pano de fundo do relatório é uma sequência ruim para o BTC. Os ETFs à vista nos EUA registraram US$ 483 milhões em saídas líquidas no dia 2 de junho. Isso estendeu uma onda de 11 pregões consecutivos que já totaliza mais de US$ 3,4 bilhões drenados dos fundos.

Em paralelo, carteiras associadas à Mt. Gox movimentaram 10.306 BTC, equivalentes a cerca de US$ 739 milhões. Isso reacendeu o receio de distribuição a credores. E a Strategy, de Michael Saylor, surpreendeu ao revelar a venda de 32 BTC — a primeira em quase quatro anos —, alimentando especulações sobre saúde financeira da maior tesouraria corporativa de Bitcoin do planeta.

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O cenário macro complica ainda mais. Petróleo segue volátil com as negociações entre EUA e Irã, ouro e prata atraem fluxo defensivo, e o mercado de derivativos amplificou a queda: mais de 152 mil traders foram liquidados em 24 horas, com perdas superiores a US$ 744 milhões.

Leitura para o investidor brasileiro

Para o investidor local, o diagnóstico da Binance traz uma nuance importante. Picos anteriores do índice de dispersão foram historicamente seguidos por fundos do Bitcoin em janelas de 0 a 20 semanas. A mediana de recuperação ficou em torno de duas semanas. Isso ocorreu quando não havia crise interna ao setor cripto.

É o caso atual: não existe FTX, Terra-Luna ou Mt. Gox em curso para travar a recuperação. O risco está fora do ecossistema. No Brasil, isso significa que a janela de estresse pode ser mais curta do que parece. Ainda assim, o real desvalorizado (USD/BRL a R$ 5,02) continua amortecendo parte da queda para quem mede em moeda local. Quem opera via corretoras nacionais sente menos o impacto nominal do que o investidor americano. Entretanto, a leitura on-chain reforça cautela. Enquanto o setor cripto listado em bolsa testa zonas técnicas, o BTC tem como próximos suportes US$ 68.700 e US$ 65 mil.

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Sou jornalista com mais de 20 anos de trajetória, dedicando a última década exclusivamente ao mercado de criptomoedas e ativos digitais. Minha formação acadêmica inclui o bacharelado em Jornalismo pela FACCAMP e uma pós-graduação em Globalização e Cultura, o que me permite analisar o ecossistema cripto sob uma ótica macroeconômica e social. Ao longo da minha carreira, tive o privilégio de entrevistar figuras centrais da história contemporânea e da tecnologia, como Adam Back, Bill Clinton e Henrique Meirelles. Além da atuação na linha de frente da informação, acompanhei de perto as discussões que moldam o sistema financeiro global em fóruns multilaterais de alto nível, como o G20 e o FMI. Decidi migrar do setor público para o mercado de blockchain por convicção: acredito no potencial técnico e disruptivo dessa tecnologia para redesenhar o futuro da economia digital. Hoje, utilizo minha experiência para traduzir a complexidade deste mercado com rigor jornalístico e visão estratégica.
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