- Bitcoin Depot emite alerta de going concern e cita dúvida sobre próximos 12 meses
- Receita despencou 49% no 1º trimestre, para US$ 83,5 milhões
- Ação acumula queda de 80% em um ano sob processos em Massachusetts e Iowa
A Bitcoin Depot, maior operadora de caixas eletrônicos de criptomoedas do mundo, acionou na terça-feira um alerta contábil que coloca em xeque sua continuidade operacional. Em comunicado enviado à SEC, a companhia listada na Nasdaq admitiu existir “dúvida substancial” sobre sua capacidade de seguir em atividade nos próximos 12 meses.
O texto, conhecido no jargão financeiro como going concern warning, costuma anteceder reestruturações severas ou pedidos de recuperação judicial. A empresa, que opera cerca de 9.000 quiosques em diferentes países, atribuiu o quadro ao avanço de processos movidos por reguladores estaduais e ao salto nos custos jurídicos.
A Bitcoin Depot também pediu prazo adicional para divulgar o balanço auditado do primeiro trimestre de 2026. A justificativa é a tentativa de corrigir uma falha de controle interno relacionada a “caixa em trânsito” terminologia usada para o dinheiro físico que circula entre os ATMs e a tesouraria.
Colapso de receita e prejuízo no trimestre
Os números preliminares mostram a deterioração. A receita caiu 49% na comparação anual, somando aproximadamente US$ 83,5 milhões nos três meses encerrados em 31 de março. A companhia atribuiu a contração ao recuo no volume de transações, puxado por mudanças regulatórias e pelo reforço dos próprios controles de compliance.
O resultado final virou prejuízo. A Bitcoin Depot reportou perda líquida de US$ 9,5 milhões, contra lucro de US$ 12,2 milhões um ano antes. O caixa também encolheu, a posição de equivalentes recuou US$ 21,6 milhões no período, terminando o trimestre em US$ 44 milhões. Os dados não passaram por auditoria.
Meses atrás, a empresa anunciou que passaria a exigir identificação pessoal em cada operação nos quiosques, em uma tentativa de blindar-se contra acusações. Mesmo assim, o cerco apertou. Procuradores-gerais de Massachusetts e Iowa lideram ações que apontam preços enganosos, facilitação consciente de golpes e política de reembolso considerada abusiva.
Escândalos de fraude e hack corporativo
O contexto setorial pesa contra. Dados do Internet Crime Complaint Center, ligado ao FBI, mostram que fraudes envolvendo ATMs de cripto atingiram US$ 389 milhões em perdas declaradas no ano passado, alta de 58% sobre 2024. Idosos americanos figuram como principais vítimas golpistas convencem o alvo a depositar dinheiro vivo nas máquinas para receber cripto que vai parar em carteiras anônimas.
No mês passado, a Bitcoin Depot informou que sofreu uma invasão e teve 50,9 BTC drenados, equivalentes a cerca de US$ 4 milhões. Os atacantes acessaram contas corporativas de cripto e desviaram os fundos. O episódio reforça o discurso de reguladores que tratam o setor como elo frágil na cadeia de prevenção à lavagem.
Ações em queda livre e leitura para o investidor
Na sexta-feira, os papéis da Bitcoin Depot subiram cerca de 3%, para US$ 2,86, após tocarem mínima de US$ 2,56 no intradia. O movimento, porém, não disfarça o tombo, a ação acumula desvalorização de 80% em 12 meses.
O caso oferece pistas para o investidor brasileiro que acompanha empresas listadas com exposição direta a cripto. Diferente de tesourarias corporativas como a Nakamoto, que registrou prejuízo de US$ 239 milhões, o problema da Bitcoin Depot não é a oscilação do preço do BTC, mas o modelo de negócio. Receita atrelada a varejo físico em um ambiente regulatório que endurece a cada trimestre.
No Brasil, o cenário é distinto. O Banco Central avança no marco regulatório do setor e o Bradesco prepara serviço de custódia de Bitcoin e stablecoins, sinal de que o canal institucional ganha terreno enquanto a infraestrutura de varejo em cash perde relevância. O destino da Bitcoin Depot pode acelerar essa migração também no exterior, com investidores reprecificando o risco regulatório de operadoras dependentes de dinheiro físico.
