Bitcoin cai a US$ 74 mil mesmo com Warsh assumindo o Fed

  • Bitcoin atinge US$ 74.190 no sábado, menor patamar em mais de um mês
  • Yield do Treasury de 2 anos sobe a 4,14% e sinaliza juros parados em 2026
  • Histórico mostra BTC caindo em todas as últimas trocas de comando no Fed

O bitcoin recuou a US$ 74.190 no sábado, seu menor patamar em mais de um mês, justamente um dia depois da posse de Kevin Warsh como presidente do Federal Reserve. A leitura inicial do mercado era de que um nome considerado simpático às criptomoedas no comando do banco central americano destravaria um novo ciclo de alta. Não foi o que aconteceu.

A queda contraria a tese mais difundida entre traders nas últimas semanas. Warsh já declarou publicamente apoio ao Bitcoin, criticou moedas digitais de bancos centrais (CBDCs) e defende espaço maior para a inovação financeira privada. Ainda assim, o ativo perdeu fôlego no primeiro pregão sob sua gestão e arrastou junto o restante do mercado cripto.

O que os juros estão dizendo

O estopim foi o movimento no mercado de renda fixa americana. O rendimento do Treasury de 2 anos subiu a 4,14%, maior nível desde fevereiro de 2025. Esse título reflete onde os investidores acreditam que a taxa básica dos EUA estará no curto prazo. Hoje, o intervalo-alvo do Fed está em 3,50%–3,75%.

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Quando o yield de 2 anos ultrapassa o range atual do Fed, historicamente o cenário aponta para política monetária mais apertada à frente. Dados da ferramenta FedWatch do CME mostram que o mercado precifica juros parados durante a maior parte de 2026, com chance crescente de uma alta de 25 pontos-base em dezembro. O cenário de afrouxamento rápido — que sustentava boa parte da narrativa altista — saiu da mesa.

Para o Bitcoin, o efeito é direto. O ativo costuma se beneficiar de juros reais em queda e liquidez abundante. Com a curva indicando o oposto, o capital especulativo recua. O movimento se soma à recente sinalização de Christopher Waller sobre alta de juros, que já vinha pesando sobre o ativo desde meados da semana.

Warsh, o falcão da inflação

A leitura otimista sobre Warsh ignorou um ponto central: o histórico dele como falcão monetário. O analista Crypto Patel resumiu em publicação no X que ser amigável à regulação cripto não é o mesmo que ser dovish em juros. Warsh enfrenta um pano de fundo macroeconômico difícil — riscos inflacionários ligados ao conflito com o Irã e pressão no mercado de trabalho americano — que limitam qualquer impulso para cortes agressivos.

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No Brasil, o reflexo aparece em duas frentes. Primeiro, no câmbio: dólar forte historicamente reduz o apetite local por ativos de risco e drena liquidez das exchanges nacionais. Segundo, no diferencial de juros. Com o Fed mantendo postura restritiva e o Banco Central brasileiro já em ciclo de Selic elevada, o custo de oportunidade para alocar em cripto dentro do país sobe. Investidores brasileiros que operavam alavancados em BTC sentiram o impacto rápido — as liquidações superaram US$ 917 milhões no mercado global.

Padrão histórico em trocas de comando

Há um detalhe que poucos traders observaram antes da posse. O Bitcoin tem histórico ruim em anos de transição no Fed. Quando Janet Yellen assumiu, em janeiro de 2014, o ativo caiu 84% nos meses seguintes. Na chegada de Jerome Powell, em fevereiro de 2018, a queda foi de 73%. No segundo mandato de Powell, iniciado em maio de 2022, o BTC perdeu 60% até o fundo do ciclo.

O padrão sugere que o mercado tende a reduzir exposição enquanto aguarda sinais claros sobre a condução da política monetária. Não significa repetição automática — cada ciclo tem suas variáveis —, mas reforça a cautela. Operadores que vinham comprados na expectativa de um “efeito Warsh” de curto prazo já recalculam. A definição da postura do novo presidente do Fed só virá nas próximas reuniões do FOMC, e até lá o mercado opera sem âncora clara para precificar o ciclo.

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Jornalista, assessor de comunicação e escritor. Escreve também sobre cinema, séries, quadrinhos, já publicou dois livros independentes e tem buscado aprender mais sobre criptomoedas, o suficiente para poder compartilhar o conhecimento.
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