- Citi origina os empréstimos e HPS, da BlackRock, banca a maior parte do capital
- Programa tem prazo inicial de 5 anos e foca dívida sub-investment grade na EMEA
- HPS soma US$ 381 bilhões sob gestão e absorve risco que sairia do balanço do Citi
O Citigroup e a HPS Investment Partners, braço de crédito privado da BlackRock, anunciaram um programa de € 15 bilhões voltado a empréstimos corporativos na Europa, Oriente Médio e África. O desenho concentra a originação no banco americano e transfere a quase totalidade do risco de crédito para a gestora.
A engenharia é simples no papel e estratégica no fundo. O Citi capta os clientes, estrutura as operações e cobra tarifas. A HPS coloca o capital, assume a inadimplência potencial e libera o balanço do banco de ativos ponderados por risco — exatamente os mais caros sob Basileia.
Como o acordo foi estruturado
O programa tem prazo inicial de cinco anos e mira dívida sub-investment grade. Os tomadores serão empresas de médio e grande porte e companhias controladas por fundos de private equity na Europa Continental e no Reino Unido. A expansão para o Oriente Médio está prevista na sequência.
A HPS administra cerca de US$ 381 bilhões em ativos. É volume suficiente para absorver o pipeline gigantesco que um banco do porte do Citi consegue gerar em poucos meses. Em troca, a gestora ganha acesso à rede de relacionamentos do banco, presente em dezenas de países e milhares de clientes corporativos.
Para o Citi, o cálculo é defensivo. Manter empréstimos sub-investment grade no balanço consome capital regulatório pesado desde as exigências pós-2008. Repassar o risco e ficar com a originação preserva receita de comissões sem onerar o índice de capital — o mesmo movimento que JPMorgan, Wells Fargo e Barclays já testaram em parcerias menores.
O que isso diz sobre o mercado de crédito
O crédito privado deixou de ser nicho. Estimativas da indústria colocam o setor global em mais de US$ 1,7 trilhão, com projeção de US$ 2,8 trilhões até 2028. Bancos tradicionais foram empurrados para fora desse mercado pela regulação. As gestoras, sem as mesmas amarras, ocuparam o espaço — e agora voltam a se associar aos próprios bancos para escalar.
A compra da HPS pela BlackRock, anunciada em 2024 e concluída neste ano, deu à gestora poder de fogo para fechar acordos do tamanho do que foi firmado com o Citi. É a primeira grande validação do movimento que Larry Fink vem repetindo a investidores: a fronteira entre mercado público e privado vai se borrar nos próximos anos. O assunto pode ser conferido nos comunicados oficiais da BlackRock.
A conexão com o mundo cripto
O acordo tem leitura indireta, mas relevante, para quem acompanha tokenização e ativos digitais. A BlackRock é hoje a principal porta de entrada institucional em cripto via IBIT, o ETF de Bitcoin que ultrapassou US$ 80 bilhões em ativos. A gestora também lidera o avanço dos RWAs tokenizados, com o fundo BUIDL operando em Ethereum e outras redes.
Crédito privado é justamente uma das classes mais citadas como candidata natural à tokenização. Empréstimos sub-investment grade são ilíquidos, têm spreads atrativos e demandam custódia eficiente — três características que blockchains públicas resolvem melhor do que sistemas legados. Se uma fração dos € 15 bilhões migrar para infraestrutura on-chain nos próximos anos, será sob a tutela da própria BlackRock.
No Brasil, o paralelo aparece nas FIDCs e nas tentativas recentes da CVM de regulamentar fundos com exposição a crédito tokenizado. Bancos como Itaú e BTG já testam estruturas semelhantes em ambiente controlado. A diferença é de escala: o acordo Citi-HPS sozinho equivale a aproximadamente R$ 90 bilhões, valor próximo ao patrimônio total de fundos de crédito estruturado registrados na ANBIMA.
Para o investidor brasileiro com exposição à BlackRock — direta via ETFs ou indireta via veículos como o IBIT — o programa reforça a tese de que a gestora vai concentrar receita crescente fora dos mercados públicos tradicionais. O efeito pode ser silencioso, mas é estrutural.
