- Mark Cuban vende a maior parte de seus Bitcoins após frustração com hedge
- Bilionário cita disparada do ouro a US$ 5.500 e queda do BTC para US$ 77,5 mil
- Cuban poupa Ethereum por utilidade real e chama memecoins de lixo
O bilionário Mark Cuban se desfez da maior parte de suas posições em Bitcoin, em uma das declarações mais duras já feitas por um investidor de seu calibre contra o ativo. Em entrevista ao Front Office Sports, o investidor afirmou que o Bitcoin “perdeu o enredo” e falhou em entregar aquilo que vendia como principal atributo: proteção contra a fraqueza do dólar e contra choques geopolíticos.
A fala marca uma virada relevante de discurso. Cuban era, até recentemente, um dos defensores corporativos mais visíveis da tese de que o ativo digital seria uma versão superior do ouro. O ex-dono do Dallas Mavericks construiu boa parte de sua reputação cripto justamente sobre essa narrativa de escassez programada e descentralização.
O ponto de ruptura
O estopim, segundo o próprio investidor, foi o comportamento dos dois ativos durante o conflito entre Estados Unidos e Irã. O ouro saltou para um recorde acima de US$ 5.500 por onça no auge das tensões. O Bitcoin, que deveria reagir de forma simétrica à fraqueza do dólar, ficou para trás.
“Toda vez que o dólar caía, o Bitcoin deveria subir. Não é o hedge que eu esperava”, afirmou Cuban. Ele resumiu sua decepção em uma frase: “Sempre achei que era uma versão melhor do ouro. Mas o ouro explodiu até US$ 5.000. O Bitcoin caiu”.
Os números reforçam a leitura do bilionário no curto prazo. O BTC era negociado perto de US$ 77.500 na quinta-feira, com recuo de aproximadamente 30% em 12 meses e 38% abaixo da máxima histórica de US$ 126.080, atingida em outubro. O ouro, mesmo após correção recente, acumula alta superior a 37% no mesmo intervalo e mantém capitalização acima de US$ 31 trilhões — a maior do mundo entre os ativos.
O contraponto da janela temporal
A crítica tem fragilidade analítica conhecida no mercado: depende da janela escolhida. Desde os primeiros sinais do confronto EUA-Irã, no fim de fevereiro, o Bitcoin sobe mais de 16%, enquanto o ouro recua mais de 15%. Em outras palavras, dependendo de onde se traça a linha, o ativo digital aparece como o vencedor — não o derrotado.
Para o investidor brasileiro, o ruído de Cuban chega em um momento delicado. Os ETFs spot de Bitcoin registraram dias consecutivos de resgates, o IBIT da BlackRock lidera as saídas e a demanda à vista na Coinbase está enfraquecida. Em reais, o BTC opera próximo de R$ 415 mil, recuo que apaga boa parte dos ganhos do ano para quem comprou no topo de outubro.
Ethereum poupado e memecoins no lixo
Cuban fez uma distinção clara dentro do ecossistema. Disse estar menos decepcionado com o Ethereum, sustentado, na sua visão, por utilidade real através de finanças descentralizadas e aplicações em blockchain. Sobre memecoins e tokens especulativos, foi categórico: chamou de “lixo”.
A virada surpreende quem acompanha sua trajetória. Em 2021, o portfólio cripto do empresário era dividido em cerca de 60% em Bitcoin, 30% em Ethereum e 10% em outros ativos. Ele exibia carteiras publicamente, era entusiasta de NFTs e chegou a aceitar Dogecoin como forma de pagamento em produtos do Mavericks. Já previu, inclusive, que o DOGE chegaria a US$ 1 e funcionaria como uma espécie de stablecoin — projeção que envelheceu mal.
O recado final do bilionário toca em um ponto recorrente entre céticos do setor: a falta de aplicação massiva. “O setor não encontrou uma aplicação para a vovó”, disse, em referência à ausência de casos de uso cotidianos. A declaração ecoa o discurso de bancos centrais e reguladores que questionam a utilidade do ativo fora do circuito especulativo, em um momento em que a abertura do Fed a empresas cripto tenta justamente abrir essa porta.
A íntegra das declarações está na publicação do Front Office Sports que veiculou a entrevista original.
