- Mineradoras de Bitcoin reconvertidas em data centers de IA sobem entre 45% e 135% no ano
- Jefferies inicia cobertura de cinco empresas e dá rating de compra para quatro delas
- Banco projeta 66 GW de capacidade de IA nos próximos 5 anos com oferta restrita
O frenesi por ações ligadas à inteligência artificial encontrou um novo nicho em Wall Street: antigas mineradoras de Bitcoin que migraram parte da infraestrutura para hospedar data centers de IA. O movimento já se reflete nas cotações, com papéis acumulando ganhos entre 45% e 135% no ano.
A leitura veio em relatório do Jefferies divulgado nesta quinta-feira (14), que iniciou cobertura de cinco companhias do setor. Cipher Mining (CIFR), TeraWulf (WULF), Hut 8 (HUT), Riot Platforms (RIOT) e Core Scientific (CORZ) entraram no radar do banco. Quatro receberam recomendação de compra. Apenas a Riot ficou com rating neutro.
Gargalo de energia vira vantagem
O argumento central do banco é simples: o maior gargalo da expansão da IA não é silício, é energia. E mineradoras de Bitcoin chegaram primeiro às subestações.
“Um dos maiores gargalos é energia interconectada, onde esses desenvolvedores têm largada antecipada, já que estão reaproveitando a energia originalmente contratada para mineração de BTC para pivotar em direção ao desenvolvimento de data centers de IA”, escreveram o analista de equity Jonathan Petersen e sua equipe no documento publicado pelo banco.
Os cálculos do Jefferies projetam algo em torno de 66 gigawatts de capacidade de data centers de IA entrando em operação nos próximos cinco anos. As cinco empresas cobertas no relatório respondem por apenas 17% desse total. A demanda projetada deve ultrapassar a oferta — o que abre espaço para que mineradoras com contratos de energia já assinados convertam essa base física em receita recorrente com hyperscalers.
Preços-alvo e potencial de alta
Para Cipher, TeraWulf, Hut 8 e Core Scientific, os preços-alvo implicam valorização adicional entre 18% e 48% em relação aos níveis recentes. Já o alvo da Riot ficou colado à cotação atual, justificando o rating neutro. Vale notar que, segundo dados compilados pela Visible Alpha, todos os analistas que cobrem essas ações mantêm visão otimista.
A reação na sessão foi modesta, com ganhos entre 1% e quase 5% entre as quatro recomendadas — sinal de que o mercado já precificou parte do otimismo ao longo de 2025. Algumas dessas empresas já entregam receita de data center ou fecharam contratos de locação de longo prazo com gigantes de nuvem.
O paradoxo da tese cripto
Há uma ironia importante nessa história que vale destacar ao investidor brasileiro. Empresas listadas como “mineradoras de Bitcoin” estão sendo reprecificadas justamente por deixarem de minerar. A correlação dessas ações com o preço do BTC tende a cair conforme o mix de receita migra para contratos de IA — que pagam em dólar fixo, sem volatilidade de hashrate ou halving.
Para quem usa essas teses como proxy de exposição ao Bitcoin via bolsa, o sinal é de atenção: o beta com o BTC vai diminuir. Essa lógica difere do movimento puro de tesouraria que vimos em casos como o da Nakamoto, que segue vendendo Bitcoin após prejuízo bilionário, ou do modelo da Strategy de Michael Saylor.
O cenário também conversa com a chamada segunda onda do trade de IA além da Nvidia, em que investidores buscam exposição à infraestrutura física que sustenta o boom dos modelos de linguagem, não apenas aos fabricantes de chips.
Reflexo para o investidor brasileiro
No Brasil, BDRs dessas mineradoras ainda são pouco difundidos, e o acesso direto ocorre via corretoras com conta internacional. Mas a tese importa indiretamente: se hyperscalers passam a competir por energia barata com mineradoras, a margem do setor cripto puro tende a se comprimir. Mineradoras brasileiras, mais expostas a tarifas elevadas, podem encontrar janela menor de competitividade.
O ambiente regulatório local também segue em movimento, com a Receita Federal apertando o cerco sobre exchanges, o que reforça a tendência de migração de capital para teses listadas em bolsa.
