- Morgan Stanley lança trading cripto no E*Trade cobrando apenas 50 pontos-base
- Coinbase já demitiu 14% do quadro citando pressão sobre receitas
- Analistas comparam movimento à guerra de taxas dos ETFs spot em 2024
A entrada do Morgan Stanley no mercado de trading cripto via E*Trade reabriu uma disputa que o setor já conhece: a corrida para zerar taxas. O banco anunciou cobrança de apenas 50 pontos-base (0,5%) por operação, valor que fica abaixo dos 75 bps da Schwab e bem distante do que cobram Coinbase e Robinhood no varejo americano.
Para o analista da Bloomberg Eric Balchunas, o recado é direto. Em publicação no X, ele classificou o movimento como um “tiro disparado” e afirmou que “as exchanges cripto deveriam estar com medo”. A leitura é que outras corretoras tradicionais devem responder com cortes ainda mais agressivos.
O paralelo histórico é imediato. Quando os ETFs spot de Bitcoin foram aprovados em janeiro de 2024, as gestoras começaram cobrando 50 bps. Em poucas semanas, o próprio Morgan Stanley derrubou o piso para 14 bps, forçando concorrentes a fazer o mesmo. O resultado: as taxas viraram quase irrelevantes para o investidor, mas comprimiram margens dos provedores.
Coinbase no centro da pressão
A Coinbase chega a essa nova rodada já fragilizada. A exchange demitiu cerca de 14% do quadro recentemente, citando dificuldades financeiras e necessidade de reorganização. Boa parte da receita da empresa vem justamente das taxas de negociação no varejo dos EUA segmento agora ameaçado.
Jed Finn, chefe de wealth management do Morgan Stanley, foi explícito ao explicar a estratégia. “Isso é muito maior do que negociar cripto a uma taxa mais barata”, disse. Segundo ele, o objetivo é manter os 8,6 milhões de clientes do banco dentro do próprio ecossistema, em vez de vê-los migrar para plataformas especializadas. “De certa forma, a estratégia é desintermediar os desintermediadores.”
A frase resume o problema estrutural das exchanges nativas, bancos com base de clientes consolidada e custo de capital baixo podem operar cripto como linha acessória, sem depender do produto para sobreviver. Coinbase, ao contrário, vive disso.
Reação do setor cripto
Executivos do setor minimizam o cenário de “morte das exchanges”. Kevin Lee, diretor de negócios da Gate sétima maior corretora por volume diário, segundo a CoinGecko, com cerca de US$ 2 bilhões em 24 horas, classificou a narrativa como excessivamente focada nos EUA.
“Plataformas inteligentes abandonaram há tempos o modelo baseado só em taxas e diversificaram receitas em staking, produtos estruturados, serviços institucionais e crescimento de ecossistema”, afirmou Lee à CoinDesk.
O argumento se sustenta nos números: receitas com tokenização e custódia institucional têm crescido em ritmo superior às de trading puro.
Georgii Verbitskii, fundador do protocolo DeFi TYMIO, vê o lance do Morgan Stanley como positivo para a adoção. Ele observa, no entanto, que 50 bps não é uma taxa especialmente competitiva pelos padrões atuais, exchanges nativas já operam abaixo disso para clientes ativos.
O que muda para o investidor brasileiro
O efeito imediato sobre o Brasil é indireto, mas relevante. Exchanges locais como Mercado Bitcoin, Foxbit e Bitso operam num mercado onde a CVM ainda discute o marco regulatório de serviços cripto, e a competição direta com bancos tradicionais não é tão acirrada. Itaú, BTG Pactual e Nubank já oferecem cripto, mas com taxas mais altas que as praticadas no varejo americano.
Se a guerra de preços nos EUA reduzir as margens globais da Coinbase, há impacto indireto no Brasil: a empresa opera no país desde 2023 e tende a recalibrar preços para manter relevância. Além disso, a pressão competitiva costuma acelerar a adoção de receitas alternativas staking, derivativos e produtos institucionais, áreas em que o Brasil já figura entre os líderes globais.
O analista Keneabasi Umoren resume o cenário. Para ele, Wall Street não vai matar as exchanges, mas vai espremer a receita de spot e custódia nos EUA, empurrando as plataformas para derivativos, DeFi e mercados internacionais. Países como o Brasil ganham peso nesse rearranjo justamente porque o trading de varejo deixa de ser o coração do negócio.
