- PCE dos EUA sobe 4,1% em 12 meses, maior nível desde abril de 2023
- Mercado precifica 80% de chance de alta de juros do Fed em setembro
- Bitcoin recua para US$ 59.239 e Ethereum perde US$ 1.560 com aversão a risco
O índice de preços PCE, termômetro de inflação preferido pelo Federal Reserve, subiu 4,1% nos 12 meses encerrados em maio nos Estados Unidos. É o primeiro resultado acima de 4% em três anos e devolve à mesa a possibilidade de uma alta de juros ainda em 2026, conforme dados divulgados nesta quinta-feira (25) pelo Bureau of Economic Analysis.
O número veio em linha com a projeção de economistas ouvidos pela Reuters, mas reforçou o desconforto do banco central americano. Em abril, o PCE havia avançado 3,8%. Na leitura mensal, o índice cheio subiu 0,4% pela segunda vez seguida. O núcleo do PCE — que exclui alimentos e energia e é o indicador mais observado pelo Fed — acelerou para 3,4% no ano, contra 3,3% no mês anterior.
Guerra no Oriente Médio pressionou energia
O salto do PCE em maio tem nome e endereço: a escalada militar entre Estados Unidos, Israel e Irã. Após os ataques de 28 de fevereiro, Teerã passou a controlar o tráfego pelo Estreito de Ormuz, principal rota de petróleo do mundo. O resultado foi gasolina mais cara nos postos americanos e repasse direto à inflação cheia.
O quadro mudou na própria quinta-feira. Washington anunciou um acordo preliminar de paz com o Irã, e os embarques pelo estreito voltaram aos níveis pré-conflito. O petróleo recuou para patamares anteriores à guerra, o que deve esfriar a inflação de bens no próximo mês. A dor, porém, migrou para os serviços — núcleo mais difícil de domar.
“A inflação de serviços ficou acima da de bens em maio e não será facilmente contida pela queda dos preços de energia”, afirmou Scott Anderson, economista-chefe do BMO Capital Markets. “A briga entre hawks e doves no Fed deve ficar intensa.”
Mercado precifica alta em setembro
Na semana passada, o Fed manteve a taxa básica entre 3,50% e 3,75%, mas o dot plot atualizado já sinalizava propensão a apertar a política monetária ainda em 2026. Agora, o FedWatch do CME Group mostra cerca de 80% de probabilidade de alta na reunião de 15 e 16 de setembro.
O efeito chegou rápido a cripto. O Bitcoin opera a US$ 59.239 (R$ 308.155), com queda de 1,9% em 24 horas. O Ethereum recua 3,7%, cotado a US$ 1.560. Solana cede 2,4% e XRP perde 2,7%. O movimento confirma o que vinha sendo mapeado pela leitura do mercado nas vésperas do PCE, com liquidações superando US$ 1 bilhão e suporte testado em US$ 59 mil.
Vale lembrar que o cenário de juros mais altos por mais tempo tende a fortalecer o dólar e drenar liquidez de ativos de risco. O DXY, que cedeu nesta sessão, ainda é a variável-chave para definir se o Bitcoin testa novamente a faixa dos US$ 55 mil ou recupera os US$ 62 mil. Investidores brasileiros sentem o duplo efeito: dólar mais forte encarece cripto comprada em reais, mesmo quando a cotação em BRL parece estável.
Consumo acelera, mas com prazo de validade curto
Os gastos das famílias saltaram 0,7% em maio, ante 0,4% em abril. O fôlego veio de restituições maiores do Imposto de Renda americano e do efeito riqueza do rali na bolsa. O problema é que a inflação corre mais rápido que os salários, a temporada de Refunds acabou e a poupança das famílias está minguando.
Para o investidor cripto brasileiro, a equação ficou mais complexa. Um Fed disposto a subir juros muda completamente a tese de fluxo institucional via ETFs, justamente quando produtos como o IBIT da BlackRock já mostram saques relevantes. Trump, eleito em 2024 prometendo derrubar a inflação, agora vê o IPC americano se transformar em passivo político às vésperas das eleições legislativas de novembro — e o Fed, ironicamente, mais hawkish do que ele gostaria.
