- CryptoQuant pede que Strategy suspenda compras de Bitcoin para reconstruir caixa
- STRC despencou a US$ 82,50, menor cotação desde o lançamento da ação preferencial
- Cobertura de dividendos da empresa caiu de mais de 7 anos para apenas 14 meses
A pressão sobre a tesouraria da Strategy, empresa comandada por Michael Saylor, ganhou um novo capítulo. A CryptoQuant publicou uma análise dura nesta segunda-feira recomendando que a companhia interrompa imediatamente suas compras de strategy Bitcoin e direcione o capital disponível para reforçar a posição em dólar. O recado tem peso, o pedido vem em meio ao colapso da ação preferencial STRC e ao encolhimento acelerado das reservas líquidas.
A STRC, instrumento usado pela empresa para captar recursos e financiar compras de BTC, fechou a semana passada cotada a US$ 82,50. É o menor valor já registrado desde o lançamento, abaixo do valor par de US$ 100. O movimento veio logo após a aprovação do pagamento de dividendos semimensais, calendário que pressiona o fluxo de caixa em ritmo dobrado.
Obrigações de US$ 1,2 bilhão engolem caixa
O levantamento conduzido por Julio Moreno, head de pesquisa da CryptoQuant, mostra que os compromissos anualizados ligados à STRC quase quadruplicaram desde o início de 2026, somando hoje cerca de US$ 1,2 bilhão. No mesmo período, as reservas em dinheiro recuaram 38%. A maior parte do dreno veio da recompra de US$ 1,5 bilhão em notas conversíveis com cupom zero e vencimento em 2029.
O efeito combinado destruiu a margem de segurança da operação. A cobertura de dividendos despencou de mais de sete anos para apenas 14 meses. Em termos práticos, o caixa atual da companhia cobre pouco mais de um ano de pagamentos aos detentores de STRC, contra uma janela confortável vista no início do ano.
Moreno calcula que a Strategy precisaria de cerca de US$ 2,8 bilhões em caixa para devolver a cobertura de dividendos ao patamar de dois anos, considerado saudável pelo mercado.
“Uma reserva de caixa maior é o sinal mais direto que o mercado precisa para recuperar a confiança na STRC”, afirmou o analista.
Suspender os dividendos é tecnicamente possível, mas improvável eles são cumulativos e ficariam acumulados como passivo.
Venda de Bitcoin está fora de cogitação
A CryptoQuant descartou a alternativa de liquidar parte das moedas. A companhia carrega hoje cerca de US$ 10,6 bilhões em prejuízo não realizado sobre o estoque de Bitcoin, segundo Moreno. Vender nas cotações atuais com o BTC negociado a US$ 62.790, ou cerca de R$ 325.386 cristalizaria essas perdas e destruiria valor para o acionista de forma irreversível.
O analista listou alternativas menos traumáticas, elevar o rendimento atual da STRC, hoje em 11,5%, ou emitir novas ações ordinárias da MSTR para captar dólares no mercado. Parte desse cardápio já está sendo executada. Na segunda-feira anterior, dia 22 de junho, a empresa comprou apenas US$ 35 milhões em BTC e, em paralelo, reforçou o caixa em US$ 300 milhões, levando a posição em dólar a US$ 1,4 bilhão.
Saylor acumula 846 mil bitcoins sob pressão
O dilema chega num momento simbólico. A Strategy ultrapassou recentemente 846 mil BTC em tesouraria, consolidando-se como a maior detentora corporativa de Bitcoin do planeta. O modelo enfrenta seu primeiro teste relevante com Bitcoin abaixo de US$ 65 mil e crédito mais caro.
Para o investidor brasileiro exposto à tese via ações da MSTR negociadas como BDR, o recado é direto: o catalisador deixou de ser apenas o preço do Bitcoin. A saúde do balanço, a estabilidade da STRC e a capacidade de honrar dividendos passaram a comandar o sentimento. Moreno criticou compras automáticas e alertou que investir sem critério favorece acúmulo de posições nos topos.
O alerta ecoa em outros nomes do setor de tesourarias cripto. A Strive, que segue trilha semelhante, e a BitMine vêm sendo monitoradas com a mesma lupa. Investidores agora calibram não apenas quanto BTC essas empresas têm, mas quanto dólar sobra para manter a engrenagem girando.
