- Charlie Lee afirma que tokenização não cria liquidez sem demanda real
- Ethereum lidera mercado de RWA com mais de US$ 203 bilhões tokenizados
- XRP Ledger soma US$ 3,6 bilhões em ativos e US$ 1,9 bi em entradas líquidas
O criador do Litecoin, Charlie Lee, jogou um balde de água fria sobre uma das narrativas mais vendidas do ciclo atual. Em entrevista ao podcast Voice of Web3, da CoinGape, Lee declarou que 99% dos projetos de tokenização são apenas hype e que pouquíssimas iniciativas resolvem um problema real. A fala chega justamente quando Ethereum e XRP Ledger disputam protagonismo no mercado de ativos do mundo real tokenizados, segmento conhecido como RWA.
A provocação não é gratuita. A rede Ethereum concentra mais de US$ 203 bilhões em valor total de ativos tokenizados, segundo dados públicos citados pelo entrevistador. Já o XRP Ledger acumula cerca de US$ 3,6 bilhões em ativos do tipo e registrou aproximadamente US$ 1,9 bilhão em entradas líquidas nos últimos 90 dias. Mesmo diante desses números, Lee se mostrou cético quanto à utilidade prática da maioria desses lançamentos.
Deed na blockchain não vale juridicamente
O argumento central de Lee toca um ponto sensível: a fonte de verdade. Ele usou o exemplo de uma escritura de imóvel registrada em blockchain. Se um hacker roubar a chave privada do dono, ele se torna proprietário legal da casa? A resposta, claro, é não. Cartórios e registros oficiais continuam mandando.
“A verdadeira fonte da verdade é algum registro do governo”, disse Lee em entrevista ao podcast Voice of Web3. “Se a fonte da verdade não é a blockchain, então qual é o sentido?”. O criador do Litecoin defende que a tokenização só faz sentido quando o próprio livro-razão descentralizado funciona como registro definitivo de propriedade, como acontece com Bitcoin e Litecoin, onde a chave privada controla o ativo de forma soberana.
A leitura tem peso prático no Brasil. A Resolução BCB 175 e o avanço da Lei 14.478 colocaram o país entre os mais ativos na regulação cripto da América Latina, mas registros de imóveis, ações e títulos públicos seguem sob jurisdição de cartórios, B3 e Tesouro Nacional. Qualquer token imobiliário emitido por aqui esbarra no mesmo ponto cego apontado por Lee: o cartório continua sendo o árbitro final.
Liquidez não nasce de smart contract
Outro alvo do fundador foi o argumento da liquidez. Defensores da tokenização repetem que colocar ativos on-chain permite negociação global 24 horas por dia. Lee discorda da causalidade. “Liquidez só existe se houver demanda. Apenas colocar coisas na blockchain não cria liquidez automaticamente”, afirmou.
O ponto dialoga com dados recentes de plataformas brasileiras. Tokens de recebíveis e CRIs lançados localmente costumam apresentar volume baixíssimo no secundário, mesmo quando emitidos em redes públicas. A infraestrutura existe, mas o comprador final, não. A leitura de Lee ecoa, ainda, a discussão internacional sobre tokenização de ativos reais em mercados emergentes, onde a régua regulatória ainda define o que pode ou não circular livremente.
Litecoin (LTC) recua no mercado spot
Enquanto Lee discute filosofia de protocolos, o Litecoin negocia a US$ 44,27 (cerca de R$ 228,45), com leve queda de 0,1% nas últimas 24 horas. O ativo vive um momento curioso: a SEC aprovou recentemente um ETF cripto multiativos com LTC entre os 15 ativos elegíveis, sinalizando que reguladores americanos tratam o token como commodity. Mesmo assim, o desempenho de preço segue lateralizado frente a Bitcoin e Ethereum.
O recado de Lee se encaixa numa onda maior de questionamentos sobre o ciclo de RWA. Bancos como JPMorgan, BlackRock e gestoras como Franklin Templeton lançaram fundos tokenizados nos últimos meses, mas a maior parte do volume on-chain ainda se concentra em treasuries americanos e stablecoins, não em ativos exóticos como imóveis ou commodities físicas. O dado reforça a tese do criador do Litecoin: o caso de uso vencedor, até aqui, é o mais simples.
XRP Ledger acelera com instituições
Apesar das críticas, o XRP Ledger registrou crescimento institucional expressivo. A rede da Ripple foi escolhida por gestoras como Archax e Ondo para emissão de produtos tokenizados, e o token XRP é negociado a US$ 1,15, com alta de 1,2% no dia. A disputa entre Ethereum e XRP Ledger pelo trono dos RWAs deve se intensificar nos próximos trimestres, com BlackRock, Visa e bancos asiáticos ampliando pilotos em ambas as redes.
