- Investigação liga Milei à promoção da criptomoeda Libra
- Documento revela possível acordo de US$ 5 milhões
- Colapso do token gerou prejuízo de US$ 251 milhões
O presidente da Argentina, Javier Milei, enfrenta uma crise política sem precedentes após novas revelações ligarem seu nome à promoção da criptomoeda Libra. Documentos e registros analisados por investigadores indicam que ele pode ter recebido uma oferta de até US$ 5 milhões para divulgar o ativo, que posteriormente entrou em colapso.
De acordo com investigação publicada pelo The New York Times em 6 de abril, promotores federais argentinos obtiveram registros telefônicos que mostram que Milei realizou sete ligações com o empresário Mauricio Novelli na noite de 14 de fevereiro de 2025. Esse foi o mesmo dia em que o presidente publicou, nas redes sociais, o contrato da criptomoeda Libra, impulsionando sua valorização.
As ligações ocorreram antes e depois da publicação, o que levanta dúvidas sobre a versão apresentada por Milei, que afirmou repetidamente não ter qualquer vínculo com o projeto. Investigadores apontam Mauricio Novelli como um dos principais intermediários da iniciativa, estruturada pela Kelsier Ventures, do empresário Hayden Mark Davis.
Além dos registros de chamadas, investigadores encontraram no celular de Novelli um rascunho de contrato que previa um pagamento de US$ 5 milhões relacionado à promoção da Libra. O documento foi elaborado três dias antes da postagem feita por Milei. Embora não exista comprovação de que o presidente tenha assinado ou recebido os valores, o conteúdo detalha uma estrutura de pagamento vinculada a ações públicas do mandatário.
O texto também menciona que parte do pagamento dependeria da nomeação de Davis como assessor em temas de criptomoedas, o que de fato ocorreu posteriormente em publicações oficiais. Esse conjunto de evidências intensificou a pressão política sobre o governo argentino.
Criptomoeda Libra
A criptomoeda Libra registrou uma valorização explosiva logo após a divulgação feita por Milei. Em poucos minutos, seu valor de mercado saltou de praticamente zero para cerca de US$ 4,6 bilhões. No entanto, a alta não se sustentou e, em questão de horas, o ativo perdeu mais de 90% do valor.
Dados da Nansen indicam que aproximadamente 86% dos investidores tiveram prejuízo. Ao todo, cerca de 114 mil carteiras registraram perdas, somando aproximadamente US$ 251 milhões. Enquanto isso, um grupo restrito de carteiras ligadas ao projeto conseguiu liquidar posições com lucro significativo durante a queda.
As investigações também apontam que insiders controlavam cerca de 70% da oferta total do token, o que reforça suspeitas de manipulação de mercado. Poucos endereços concentraram parte dos lucros, e alguns registraram ganhos superiores a US$ 70 milhões.
Outro ponto relevante envolve o acesso antecipado ao contrato da Libra. Especialistas em análise digital confirmaram que o código divulgado por Milei não havia sido publicado em nenhum canal público antes da postagem. Isso indica que ele acessou informações internas do projeto antes do lançamento oficial.
Além disso, autoridades analisaram mensagens de voz que sugerem que Novelli já mantinha relações financeiras com Milei antes da presidência. Parte dos pagamentos também seguiu para a irmã do presidente, Karina Milei, atual chefe de gabinete.
Possível participação de Milei na fraude
Apesar das evidências, Milei ainda não foi formalmente acusado. Ele figura como “pessoa de interesse” nas investigações conduzidas pelo Ministério Público argentino. Em 2025, o órgão anticorrupção do país concluiu que sua atuação na divulgação do token configurou uma ação pessoal, e não institucional.
No entanto, essa avaliação passou a ser questionada após a revelação de novos documentos. A decisão de Milei de dissolver, por decreto, a unidade responsável por investigar o caso também gerou críticas e aumentou a desconfiança da oposição.
Diante da repercussão, a Câmara dos Deputados da Argentina reabriu as investigações e iniciou, em 8 de abril de 2026, a convocação de autoridades do governo para prestar esclarecimentos. Entre os nomes chamados estão o ministro da Economia, Luis Caputo, e o ministro da Justiça, Mariano Cúneo Libarona.
Parlamentares da oposição afirmam que a promoção da Libra não foi um ato isolado, mas parte de uma operação coordenada. Já aliados do governo defendem que não há provas conclusivas de envolvimento direto do presidente em irregularidades.
O caso segue em andamento e pode ter desdobramentos jurídicos relevantes. Pela legislação argentina, crimes de fraude podem resultar em penas que variam de um mês a seis anos de prisão. Enquanto isso, o episódio amplia o debate sobre responsabilidade de figuras públicas na promoção de ativos digitais e os riscos associados ao mercado de criptomoedas.
