- Analista JeanW revela que token de prata STHK, de 17,6 milhões de dólares de Hong Kong, teve mais da metade comprada pela própria empresa do presidente do conselho, e não por investidores externos.
- Especialista propõe avaliar RWA pela demanda real e atrito de acesso no sistema tradicional, e pelos cenários de uso na blockchain (manter, negociar ou combinar em DeFi).
- Enquanto ouro tokenizado soma US$ 5 bilhões e roda em protocolos como Aave, a prata só aparece em contratos perpétuos, sem demanda genuína para manutenção do ativo.
O mercado de Real World Assets (RWA) promete revolucionar a relação entre o mundo físico e o blockchain. Mas um analista conhecido como JeanW joga um balde de água fria na euforia: “Por enquanto, ninguém quer comprar”. Ele baseia a afirmação em casos concretos desenterrados do mercado de Hong Kong.
JeanW analisa o token de prata STHK, que exibe um total de 17,6 milhões de dólares de Hong Kong. O analista fuçou os editais públicos e descobriu um dado incômodo: mais da metade dos tokens foi parar nas mãos da própria empresa offshore do presidente do conselho. A empresa concluiu a colocação apenas quatro dias antes do fim do exercício fiscal. JeanW conclui: “A RWA serve para enfeitar o balanço da companhia”.
Outro caso exemplifica a mesma falta de demanda genuína. A DeLing Holdings tokenizou um imóvel e anunciou publicamente, já no lançamento do projeto, a distribuição de 60 milhões de dólares de Hong Kong. A empresa pegou seu próprio ativo, embalou e “presenteou” os usuários-alvo.
RWA: Primeira pergunta, vale a pena tokenizar este ativo?
“O problema não está na execução, mas na escolha do ativo”, afirma JeanW. Ele acrescenta que alguns ativos, quando tokenizados, não criam nenhum valor que o mercado financeiro tradicional já não ofereça.
O analista então propõe um framework de dois níveis, ainda que simplificado, para avaliar se um RWA merece existir.
JeanW coloca cada ativo em dois eixos. O eixo horizontal mede o atrito de acesso no sistema financeiro tradicional (restrições geográficas, jurídicas, valor mínimo de investimento). O eixo vertical mede a densidade real de demanda (quantas pessoas querem exposição ao ativo?).
A combinação gera quatro quadrantes. O quadrante nobre – alta demanda e alto atrito – é onde os RWA mais deveriam florescer. O exemplo bem-sucedido: títulos do tesouro americano tokenizados. Projetos como Ondo USDY e OUSG exploram diferentes atritos (geográficos, regulatórios, de eficiência) e já somam bilhões de dólares.
O quadrante problemático – baixa demanda e alto atrito – o analista chama de “autoengano”. O token de prata STHK se encaixa aí. “Se um ativo já não tem compradores reais no mundo tradicional, transferi-lo para a blockchain só exibe o mesmo vazio num local diferente”, sentencia JeanW.
Segunda pergunta: a blockchain tem cenários para absorver essa demanda?
Mesmo que a demanda exista, a rede precisa de casos de uso: ser mantido (hold), ser negociado (trade) ou ser combinado com outros protocolos DeFi. JeanW testa três categorias.
O ouro tokenizado funciona nas três frentes: PAXG e XAUT somam mais de US$ 5 bilhões em valor mantido, além de servirem como garantia em empréstimos na Aave. A prata, porém, só sobrevive no mercado de derivativos perpétuos. “Quem quer manter prata tem o ativo físico e os ETFs no mundo real. A blockchain não oferece valor adicional”, critica o analista.
Assim, ele conclui que o mercado atual de RWA vive de arbitragens regulatórias e de ciclo de juros. A ordem de durabilidade dessas brechas, segundo JeanW: ouro (mais durável) > pré-IPO > ações americanas > títulos do tesouro. “Caiam 200 pontos-base nos juros americanos e o produto de tesouro tokenizado perde a razão de existir”, alerta.
Por enquanto, o analista recomenda cautela: “Liquidez é resultado, não objetivo”. E o resultado, hoje, mostra poucos compradores reais na fila.
