- Bitcoin Depot entrou em Chapter 11 no Tribunal de Falências do sul do Texas
- Receita do 1º trimestre caiu 49% para US$ 83,5 milhões com prejuízo de US$ 9,5 mi
- Rede de cerca de 9 mil caixas eletrônicos foi desligada e ativos vão a leilão
A Bitcoin Depot, maior operadora de caixas eletrônicos de bitcoin da América do Norte, protocolou pedido de recuperação judicial sob o Chapter 11 nos Estados Unidos. A empresa listada na Nasdaq submeteu o pedido ao Tribunal de Falências do Distrito Sul do Texas para conduzir uma liquidação ordenada e vender ativos remanescentes.
A decisão encerra a operação de uma rede que chegou a somar cerca de 9 mil quiosques espalhados pelos EUA e Canadá. Todos os equipamentos já foram desligados. As subsidiárias canadenses entraram no mesmo processo supervisionado nos EUA, enquanto unidades em outros países devem ser fechadas conforme as leis locais.
Queda de receita e prejuízo no balanço
Os números preliminares do primeiro trimestre ajudam a entender o tamanho do problema. A companhia reportou receita de aproximadamente US$ 83,5 milhões, queda de 49% na comparação anual. O prejuízo líquido somou US$ 9,5 milhões no período.
O CEO Alex Holmes atribuiu o desempenho a uma combinação de fatores: limites menores por transação, exigências adicionais de compliance, ações de fiscalização e até proibições do modelo de negócio em algumas jurisdições. Segundo ele, o conjunto de medidas reduziu o volume de operações nos quiosques a ponto de inviabilizar o modelo.
O alerta de risco de continuidade (“going concern”) já havia sido emitido semanas antes. Na ocasião, a Bitcoin Depot reconheceu que a combinação de processos judiciais e custos de conformidade ameaçava sua viabilidade de longo prazo. Quem acompanhou de perto viu o desfecho chegar — o primeiro sinal contábil antecedeu o pedido formal de Chapter 11.
Fraudes e ofensiva regulatória dos estados
O cerco regulatório não veio do governo federal. Foi montado estado a estado. Procuradorias-gerais em diferentes jurisdições processaram a empresa alegando que os caixas eletrônicos falharam em conter golpes contra consumidores — especialmente idosos.
O esquema típico envolve criminosos que se passam por agentes do fisco ou suporte técnico e induzem vítimas a depositar dinheiro nas máquinas. Como o BTC enviado some na rede, recuperar o valor é praticamente impossível. Estados como Califórnia, Vermont e Connecticut limitaram transações diárias entre US$ 1.000 e US$ 5.000, e exigiram reembolsos automáticos em casos de fraude comprovada.
Holmes disse que a Bitcoin Depot implementou verificação de identidade reforçada, avisos visuais nos terminais e tetos menores por operação. Não foi suficiente. Cada novo entrave regulatório derrubou volumes ainda mais.
O que isso significa para o investidor brasileiro
O caso serve de espelho para quem acompanha o setor cripto no Brasil. Caixas eletrônicos de bitcoin nunca ganharam escala por aqui — havia poucas dezenas em capitais como São Paulo e Rio antes mesmo de o Banco Central começar a regulamentar prestadores de serviços de ativos virtuais sob a Lei 14.478. A baixa penetração paradoxalmente protege o mercado local de uma exposição relevante ao colapso da Bitcoin Depot.
Mas o pano de fundo é o mesmo: autoridades em todo o mundo têm tratado a interface física entre dinheiro vivo e cripto como vetor de lavagem e fraude. A Polícia Federal brasileira já mira esse elo, como mostrou o levantamento de apreensões de cripto ligadas ao crime em 2025. O movimento contra ATMs tende a se intensificar globalmente.
Para o mercado de capitais, o caso da Bitcoin Depot reforça a tese de que negócios cripto altamente expostos a varejo presencial enfrentam margens cada vez piores. Operações puramente digitais — exchanges com KYC robusto, custodiantes e ETFs spot — capturaram a maior parte do fluxo institucional dos últimos dois anos. Caixas eletrônicos, do outro lado da curva, viraram passivo regulatório.
A Bitcoin Depot foi a aposta pública de que o varejo físico de bitcoin teria escala. Detalhes adicionais do processo estão disponíveis no sistema PACER do Judiciário federal americano, junto à Corte de Falências do Distrito Sul do Texas. O desfecho também pressiona concorrentes diretos como CoinFlip e Coinme, que operam sob o mesmo arcabouço estadual fragmentado.
