- WLFI arrecadou US$ 500 milhões e licenciamento do TRUMP somou US$ 635 milhões
- Token TRUMP acumula queda de 98% desde o lançamento em janeiro de 2025
- Bitcoin recuou 52% da máxima de US$ 126 mil registrada em outubro de 2025
O disclosure financeiro federal mais recente de Donald Trump revelou que os negócios cripto ligados ao presidente e à família dele geraram mais de US$ 1 bilhão em receita durante 2025. O documento chega em um momento simbólico, o mesmo ano em que o Bitcoin despencou mais de 50% após tocar a máxima histórica de US$ 126 mil, aniquilando os ganhos que o varejo havia acumulado no rali pós-eleição.
A World Liberty Financial (WLFI), plataforma de finanças descentralizadas ligada à família presidencial, sozinha captou mais de US$ 500 milhões em vendas de tokens no ano. Um contrato de licenciamento amarrado à memecoin $TRUMP adicionou outros US$ 635 milhões. Levantamento paralelo da Reuters coloca a extração total da família em US$ 2,3 bilhões quando se somam monetização de participações societárias e veículos ligados a stablecoins.
Concentração de tokens devolveu taxas a Trump
Reportagens da CNN e do Yahoo Finance apontam que entidades controladas por Trump detêm cerca de 80% do supply da memecoin $TRUMP. Na prática, a estrutura de licenciamento canalizou taxas de negociação e royalties de volta para as empresas do presidente enquanto o investidor de varejo, que comprou no pico narrativo, absorveu praticamente toda a queda.
O token perdeu 98% do valor desde o lançamento, dias antes da posse. Hilary Allen diz que o setor cripto recebeu tudo que queria, criticando o avanço regulatório favorável nos EUA. Allen acrescentou que “as investidas da família Trump não ajudaram a dissipar a percepção de que cripto é golpe”. No Congresso, a senadora Kirsten Gillibrand tenta usar o episódio para barrar memecoins emitidas por políticos dentro do CLARITY Act.
Bitcoin perdeu 52% da máxima em oito meses
O contraste com o mercado é gritante. Depois de subir mais de 80% no ano seguinte às eleições de 2024 e cravar a máxima de US$ 126 mil em outubro do ano passado, o BTC recuou a menos de US$ 60 mil semanas atrás, um drawdown de 52%. Um único dia de queda queimou US$ 3,2 bilhões em posições o pior baque desde o colapso da FTX. Nesta segunda-feira, o Bitcoin opera em US$ 62.620, ou aproximadamente R$ 325 mil na cotação brasileira.
A liquidação institucional puxou o gatilho. ETFs de Bitcoin à vista nos EUA perderam US$ 2,7 bilhões em uma única semana encerrada em 5 de junho, com sequência de dez a treze pregões consecutivos de resgates líquidos, totalizando US$ 4,3 bilhões. A rotação de capital para papéis de IA e semicondutores acelerou a fuga. E a Strategy, antiga MicroStrategy, quebrou o mantra de nunca vender e sinalizou desmonte de posição, arranhando a narrativa do HODLer institucional.
BTC perdeu suporte de US$ 62 mil em junho, liquidando US$ 1,5 bilhão em posições compradas alavancadas rapidamente. Yusuf Fakhro vê venda arrefecer, mas alerta que demanda fraca pode prolongar sangria do mercado nas próximas semanas.
Tapete vermelho regulatório não segurou o preço
A ironia é que a queda aconteceu sob o ambiente regulatório mais favorável da história do setor. A Casa Branca instalou nomes pró-indústria na SEC, que em seguida arquivou uma série de processos contra empresas ligadas ao entorno de Trump. Governo propõe reserva estratégica de Bitcoin e apoia projetos bipartidários para regular emissão e negociação de ativos digitais.
Para o investidor brasileiro, o pano de fundo é duplo. Além da volatilidade importada, o Banco Central prepara exigências de capital para exchanges locais a partir de 2027, endurecendo o cerco doméstico enquanto Washington afrouxa o seu. Eswar Prasad vê demanda saudável por ativos digitais, mas ignora quem ganha e quem realmente financia esse ecossistema. Os números do disclosure de Trump, cruzados com os prejuízos do varejo que comprou o topo, oferecem parte da resposta.
