- Trace Finance levanta US$ 32 milhões em Série A liderada pela CoinFund
- Coinbase Ventures, Jump Capital e Paxos entram na rodada da fintech latino-americana
- Empresa já processou US$ 10 bilhões em liquidações com stablecoins na região
A Trace Finance, fintech especializada em liquidação de pagamentos transfronteiriços com stablecoin, fechou uma rodada Série A de US$ 32 milhões. O cheque foi liderado pela gestora cripto CoinFund, com participação de Coinbase Ventures, Jump Capital e Paxos, segundo comunicado divulgado pela empresa nesta quarta-feira.
O grupo opera infraestrutura bancária, câmbio e trilhos de liquidação em dólar digital para empresas que movimentam dinheiro entre a América Latina e o resto do mundo. A companhia afirma já ter processado mais de US$ 10 bilhões em volume desde o lançamento. Em valores convertidos pela cotação atual do dólar a R$ 5,0551, esse fluxo equivale a aproximadamente R$ 50,8 bilhões.
A HOF Capital, que comandou a rodada seed de US$ 4,3 milhões em 2022, voltou a colocar capital nesta nova etapa. Naquela primeira injeção, a Trace recebeu cheques da Circle Ventures e da Mantis VC, fundo cofundado pela dupla de música eletrônica The Chainsmokers.
Trilho conecta Brasil aos Estados Unidos e Ásia
Os recursos vão financiar a expansão para três frentes simultâneas, o restante da América Latina, os Estados Unidos e a região Ásia-Pacífico. A escolha desses mercados não é aleatória. São justamente os corredores onde o volume de remessas em USDC e USDT mais cresce, em substituição a redes tradicionais como Swift e correspondentes bancários.
Para o investidor brasileiro, o movimento tem leitura direta. Empresas exportadoras, importadoras de eletrônicos asiáticos e prestadores de serviço que faturam em dólar passam a ter alternativa de liquidação que não depende de spread de banco comercial nem do prazo de fechamento de câmbio convencional. A regulamentação cambial mais flexível, vigente no Brasil desde 2023, abriu espaço para esse tipo de fluxo e fintechs como a Trace estão preenchendo o vão deixado pelas instituições tradicionais.
O mercado total de stablecoins ronda US$ 315 bilhões em capitalização, conforme dados do DefiLlama. A Circle, emissora do USDC, vem reforçando a oferta na Solana e em outras redes para sustentar exatamente esse tipo de uso corporativo.
GENIUS Act acelera corrida por licenças globais
O aporte na Trace acontece em meio a uma onda regulatória que mudou a régua do setor. Em julho de 2025, o presidente Donald Trump sancionou o GENIUS Act, lei que define o arcabouço para emissores de stablecoins nos Estados Unidos. A peça destravou conversas semelhantes em outras jurisdições.
Hong Kong colocou em vigor sua Stablecoin Ordinance em agosto de 2025 e já concedeu o primeiro lote de licenças a emissores locais. Na China continental, o tom mudou. Wang Xin, autoridade do Banco Popular da China, declarou nesta semana que o regulador monitora de perto o efeito das stablecoins no sistema monetário internacional. O discurso soou menos hostil do que o do governador Pan Gongsheng em outubro, quando ele classificou esses ativos como ferramentas de alto risco para transferências ilícitas.
No Brasil, o Banco Central finaliza o regulamento de prestadores de serviços de ativos virtuais previsto na Lei 14.478. O ponto sensível segue sendo o uso de stablecoins em autocustódia para remessas internacionais, alvo de consulta pública aberta pela autarquia ao longo de 2024.
Stripe, Circle e Coinbase disputam a mesma camada
A Trace não está sozinha na disputa. A Stripe comprou a startup de infraestrutura de stablecoins Bridge em 2025, num dos maiores negócios do setor. A Circle lançou em maio do mesmo ano a Circle Payments Network, conectando bancos, processadores e carteiras digitais à liquidação em tempo real com USDC.
Na semana passada, a plataforma de payouts MassPay fechou parceria com a Coinbase para oferecer pagamentos internacionais com stablecoin. O serviço promete trânsito direto entre moedas fiduciárias, USDC e outros ativos digitais modelo que se sobrepõe ao da Trace na ponta do destinatário final. A pressão competitiva sobre margens deve crescer à medida que esses trilhos se padronizam.
