- Bancos ainda bloqueiam contas por falta de ferramentas adequadas
- Usuários enfrentam congelamentos mesmo com avanço institucional cripto
- Lacunas de risco mantêm o conflito entre bancos e blockchain
A relação entre bancos e criptomoedas continua tensa, mesmo com a melhora da reputação dos ativos digitais. Os investidores reclamam que suas contas seguem bloqueadas quando interagem com exchanges. Essa fricção persiste ao redor do mundo e, apesar da maior adoção institucional, muitos usuários ainda sofrem congelamentos e atrasos sem explicação clara.
Em vários países, relatos se repetem. Contas bancárias são congeladas e transferências são barradas sempre que há movimentação ligada a ativos digitais. O aumento do uso de criptomoedas não impediu a postura rígida dos bancos, que seguem tratando o setor como risco elevado.
O choque entre inovação cripto e sistemas bancários tradicionais
O caso de Panos Mekras, CEO da Anodos Labs, ilustra esse atrito. Ele começou a negociar criptomoedas na Grécia no fim dos anos 2010 e enfrentou bloqueios de pagamentos e recusas de transferências. Segundo ele, os bancos classificavam automaticamente qualquer transação com exchanges como perigosa, o que levava ao fechamento de contas sem aviso.
Embora o cenário tenha evoluído, Mekras afirma que os mesmos obstáculos continuam aparecendo. Em um episódio recente, ele tentou transferir recursos de uma exchange para a Revolut e viu sua conta ser congelada por três semanas. Durante esse período, ficou totalmente sem acesso ao próprio dinheiro.
Essas situações, porém, não são isoladas. Um relatório do Conselho Empresarial de Criptoativos do Reino Unido mostrou que 40% das transações enviadas a exchanges enfrentam bloqueios, e 80% das corretoras relatam aumento de atritos com bancos. Mesmo instituições que oferecem serviços ligados a criptomoedas, como a Revolut, ainda aplicam congelamentos preventivos quando detectam “atividades irregulares”.

Além disso, a visão restritiva varia entre regiões. A China, por exemplo, proíbe a entrada e saída de criptomoedas, empurrando usuários para mercados paralelos. Já a Nigéria, que havia adotado postura semelhante, reconheceu oficialmente os ativos digitais como valores mobiliários em 2025.
EUA, Europa e o avanço institucional que ainda não chega ao usuário
Nos EUA, o debate ganhou força com a ideia de uma “Operação Chokepoint 2.0”, expressão usada para descrever pressões informais que desencorajariam bancos a operar com empresas cripto. Em resposta, o escritório do controlador da moeda reconheceu oficialmente as práticas de desbancarização e publicou orientações permitindo a atuação bancária como corretora de transações cripto. Mesmo assim, usuários continuam relatando resistência em operações simples.
Paralelamente, grandes bancos buscam entrar no setor. Sessenta por cento das 25 maiores instituições dos EUA planejam oferecer serviços ligados ao Bitcoin, incluindo custódia e negociação. Na Europa, o MiCA abriu espaço para produtos regulamentados, enquanto no Reino Unido o HSBC já apoia emissões piloto de títulos tokenizados.
Apesar disso, especialistas afirmam que o núcleo do problema permanece dentro dos próprios bancos. A infraestrutura de risco e conformidade não consegue interpretar dados da blockchain de forma integrada. Como explica Eyal Daskal, CEO da Crymbo, bloquear contas acaba sendo a solução mais simples, já que as instituições não possuem ferramentas adequadas para analisar transações on-chain.
Enquanto essa lacuna tecnológica não for resolvida, o setor seguirá vivendo uma contradição: a adoção institucional cresce, mas os usuários continuam encontrando portas fechadas. E, assim, o conflito entre bancos e criptomoedas permanece longe do fim.

