- Criminosos se passam por autoridades iranianas e cobram BTC ou USDT
- Navio que pagou taxa fraudulenta foi atacado no sábado
- Pagamento a golpistas ainda pode violar sanções dos EUA
Criminosos estão se aproveitando da tensão geopolítica no Estreito de Ormuz para aplicar golpes em empresas de navegação. O esquema envolve mensagens falsas exigindo pagamento em Bitcoin ou USDT para liberar a passagem de navios pela rota estratégica, responsável por 21% do consumo global de petróleo.
A empresa grega de risco marítimo MARISKS emitiu alerta nesta segunda-feira sobre o golpe que explora o conflito entre Irã e Estados Unidos. Os fraudadores se passam por autoridades iranianas e prometem trânsito seguro mediante pagamento em criptomoedas.
“Após análise dos documentos pelos serviços de segurança do Irã, determinaremos a taxa em criptomoeda (BTC ou USDT). Só então seu navio poderá transitar sem impedimentos no horário pré-acordado”, diz mensagem interceptada pelos analistas.
Navio atacado havia pago taxa fraudulenta
O caso mais grave aconteceu no sábado. Um navio que tentava sair do estreito durante breve reabertura foi atacado por embarcações iranianas. A MARISKS acredita que a embarcação havia pago a taxa fraudulenta antes do ataque, expondo falha crítica no sistema de verificação.
O golpe surgiu semanas depois do Irã anunciar cobrança oficial de pedágio em Bitcoin. O governo iraniano alegou que pagamentos em cripto evitariam rastreamento e confisco por sanções internacionais. A medida representaria nova estratégia para contornar o bloqueio econômico imposto por Washington.
Dados on-chain, porém, nunca confirmaram essa operação em larga escala. A empresa de análise blockchain TRM Labs informou que não encontrou evidências de pagamentos cripto relacionados ao Estreito de Ormuz nas blockchains monitoradas. Essa ausência de rastros digitais levanta dúvidas sobre a implementação real do sistema iraniano.
Risco de sanções persiste mesmo com golpe
Isabella Chase, chefe de políticas da TRM Labs para Europa, Oriente Médio e África, alerta que qualquer carteira associada a essas demandas deve ser tratada como alto risco até verificação independente via inteligência blockchain.
“Atores ligados ao Irã têm histórico documentado de usar criptomoedas para contornar controles financeiros tradicionais”, explicou Chase. Ela recomenda que empresas de navegação realizem verificações de blockchain em qualquer carteira antes de transferir fundos e consultem especialistas em sanções.
O problema legal transcende o golpe em si. Mesmo pagamentos não intencionais a entidades sancionadas geram responsabilidade sob regulamentos do OFAC americano. “Pagamentos cripto não oferecem porto seguro contra essa exposição”, reforça Chase.
Xue Yin Peh, chefe de estratégia investigativa da Chainalysis, detalha que pagar golpistas não elimina riscos de sanções. A análise jurídica considera a intenção original da transação.
“Se o pagamento chegar ao Irã, a exposição é direta. Qualquer pagamento a entidade governamental iraniana provavelmente constitui violação de sanções sob OFAC, UE e regras britânicas”, afirma Peh.
Impacto econômico e previsões de mercado
O tráfego de petroleiros pelo Estreito de Ormuz despencou para menos de 5% do volume pré-guerra após o Irã reimpor restrições em 18 de abril. A rota é vital para o comércio global de energia, conectando produtores do Golfo Pérsico aos mercados asiáticos e europeus.
Mercados de previsão mostram ceticismo sobre normalização rápida. No Polymarket, traders atribuem apenas 28% de chance ao retorno do transporte normal até o fim do mês. A plataforma Myriad apresenta visão mais otimista, com 64% de probabilidade de mais de 15 navios transitando diariamente antes de maio.
Reguladores podem questionar a intenção da empresa ao pagar o que acreditava ser um regime sancionado, mesmo descobrindo depois tratar-se de fraude. “A companhia permanece vítima, mas os fundos ainda podem acabar com atores sancionados ou envolvidos em atividades ilícitas”, complementa Peh.
Especialistas recomendam práticas antifraude rigorosas: verificar demandas por canais oficiais, consultar assessores de segurança marítima e tratar pressão por pagamento urgente como sinal vermelho. Com informação limitada sobre administração iraniana de pagamentos cripto, a verificação múltipla tornou-se essencial para navegação segura tanto no mar quanto no compliance internacional.

