- Strategy planeja vender parte dos bitcoins para testar reação do mercado
- Prejuízo de US$ 12,7 bilhões reflete queda não realizada nos ativos digitais
- Empresa mantém 818.334 BTC avaliados em US$ 64 bilhões
A Strategy, antiga MicroStrategy, surpreendeu o mercado ao anunciar que pretende vender parte de suas reservas de Bitcoin pela primeira vez desde que iniciou sua estratégia de acumulação em 2020. O anúncio veio junto com o relatório trimestral que mostrou um prejuízo líquido de US$ 12,77 bilhões no primeiro trimestre de 2026.
Michael Saylor, presidente executivo da empresa, justificou a decisão como uma forma de “inocular o mercado”. A declaração marca uma mudança significativa na postura da companhia, conhecida por sua política agressiva de compra e retenção do ativo digital.
O prejuízo bilionário foi causado principalmente por uma perda não realizada de US$ 14,46 bilhões em ativos digitais, calculada pelo método de valor justo contábil. Apesar do número alarmante, a receita operacional da empresa cresceu 11,9% para US$ 124,3 milhões no período.

Métricas internas mostram ganhos
Enquanto a contabilidade tradicional registra perdas massivas, Saylor prefere focar em métricas alternativas que desenvolveu para medir o sucesso da estratégia. O BTC Yield, indicador que mede a mudança nas reservas de Bitcoin por ação diluída, atingiu 9,4% no acumulado do ano.
A empresa calcula que esse percentual equivale a um ganho de 63.410 BTC em termos de exposição por acionista. Em dólares, o mesmo cálculo resulta em um “BTC $ Gain” de US$ 4,97 bilhões, contrastando dramaticamente com o prejuízo contábil reportado.
A divergência entre as métricas internas e os resultados GAAP (princípios contábeis geralmente aceitos) expõe a tensão central do modelo de negócios da Strategy. Investidores precisam decidir se confiam mais nos números tradicionais ou nas medidas criadas pela própria empresa.
Reservas de Bitcoin continuam crescendo
Mesmo durante a queda acentuada do Bitcoin no primeiro trimestre, a Strategy manteve sua estratégia de compras. A empresa terminou o período com 818.334 BTC, representando um aumento de 22% desde o início do ano.
Com base no preço de US$ 78.374 em 1º de maio, a posição estava avaliada em US$ 64,14 bilhões. O preço médio de compra foi de US$ 75.537 por moeda, deixando a empresa com um pequeno lucro não realizado naquela data de referência.
As reservas da Strategy representam aproximadamente 3,9% do fornecimento total fixo de 21 milhões de bitcoins. Nenhuma outra empresa de capital aberto possui uma posição comparável, o que torna a companhia extremamente sensível às oscilações de preço da criptomoeda.
A concentração traz riscos evidentes. As ações da empresa já foram negociadas entre US$ 100 e US$ 500 nos últimos anos, mostrando volatilidade ainda maior que o próprio Bitcoin. Após o anúncio dos resultados, o papel MSTR registrou queda, mesmo com o crescimento das métricas internas de Bitcoin.
Ações preferenciais financiam expansão
A estrutura de financiamento da Strategy ficou mais complexa com a introdução do programa de ações preferenciais perpétuas de taxa variável, conhecido como STRC. O instrumento já levantou US$ 5,58 bilhões e cresceu 189% no ano.
Iniciado com dividendo anual de 9%, o STRC passou por aumentos sucessivos para manter negociação próxima ao valor nominal. A empresa propôs duplicar a frequência de pagamentos de mensal para quinzenal, tornando o produto mais atrativo para investidores focados em renda.
Saylor revelou que o STRC atingiu capitalização de mercado de US$ 8,5 bilhões em apenas nove meses. Surpreendentemente, US$ 270 milhões estão em protocolos DeFi como Apyx e Saturn, enquanto outros US$ 150 milhões foram adquiridos por tesourarias corporativas.
O crescimento das obrigações com dividendos preferenciais adiciona complexidade ao modelo. A Strategy reportou US$ 692,5 milhões em dividendos preferenciais acumulados e mais de US$ 13,5 bilhões em ações preferenciais em circulação.
Como o Bitcoin não gera renda, esses pagamentos devem vir do caixa existente, receita operacional, venda de ativos ou novos levantamentos de capital. A empresa tinha US$ 2,21 bilhões em caixa ao fim do trimestre, oferecendo liquidez de curto prazo mas deixando o modelo dependente de acesso contínuo aos mercados de capitais.
Assim, para investidores brasileiros acostumados com empresas que geram fluxo de caixa operacional robusto, o modelo da Strategy representa território inexplorado. A dependência de valorização do Bitcoin e emissão constante de novos títulos cria uma dinâmica que pode funcionar bem em mercados altistas, mas enfrenta desafios significativos durante correções prolongadas.
Além disso, a possível venda de bitcoins anunciada por Saylor pode ser um teste importante. Se executada, será a primeira vez que a empresa reduz suas reservas, potencialmente sinalizando uma mudança de estratégia ou simplesmente validando a liquidez de sua posição massiva.

