- PPI dos EUA sobe 1,4% em abril, maior salto mensal desde março de 2022
- Índice anual atinge 6% e supera com folga consenso de 0,5% da Dow Jones
- Energia responde por 75% da alta nos bens, com gasolina disparando 15,6%
O PPI dos Estados Unidos avançou 1,4% em abril na leitura dessazonalizada, segundo o Bureau of Labor Statistics. É o maior salto mensal da inflação no atacado desde março de 2022 e mais que o triplo do consenso da Dow Jones, que projetava alta de 0,5%.
Na base anual, o índice cravou ganho de 6%, o maior em 12 meses desde dezembro de 2022. O número de março, originalmente menor, foi revisado para cima e ficou em 0,7% — ainda assim, muito abaixo do que o atacado entregou em abril.
Energia puxa o choque
A demanda final por bens energéticos subiu 7,8% no mês e foi a principal força por trás do salto. Sozinha, a gasolina pulou 15,6% e respondeu por mais de 40% do avanço energético. Os bens de demanda final somaram alta de 2,0%, e energia explica mais de três quartos desse movimento.
Do lado dos serviços, o aumento foi de 1,2%, ritmo não visto desde março de 2022. As margens de comércio cresceram 2,7% e respondem por cerca de dois terços do componente. Já o atacado de máquinas e equipamentos subiu 3,5%, enquanto transporte e armazenagem avançaram 5,0%.
O núcleo do PPI, que exclui alimentos e energia, registrou 1,0% — também muito acima dos 0,4% projetados pelo mercado. Retirando ainda os serviços de comércio, a alta foi de 0,6%, levando o acumulado de 12 meses para 4,4%, maior variação anual desde fevereiro de 2023. A única categoria que destoou foi a do ovo, que recuou 49,7% no mês.
Impacto no Fed e no Bitcoin
A leitura do atacado vem na esteira do CPI de 3,8% em abril, maior avanço anual ao consumidor desde maio de 2023. Boa parte do estrago veio da gasolina, que subiu 28,4% em 12 meses por causa do conflito com o Irã. O salário médio real dos trabalhadores ficou negativo na comparação anual pela primeira vez desde abril de 2023.
A combinação trava o Federal Reserve. O banco central americano manteve os juros parados durante todo o ano e agora vê uma reaceleração simultânea de produtor e consumidor. Operadores de futuros, que precificavam até dois cortes até dezembro, recuaram a aposta. O dado completo está no relatório oficial do BLS.
Leitura para o mercado cripto
Para o investidor brasileiro de cripto, o efeito é direto. Juros americanos parados em patamar restritivo seguram o dólar forte, encarecem o custo de oportunidade de ativos de risco e dificultam a reativação do apetite global. O Bitcoin já reagiu mal: caiu abaixo de US$ 80 mil logo após a divulgação, conforme mostrou a leitura do mercado após o PPI.
Há também um componente histórico. Em ciclos anteriores de PPI rodando acima de 5% ao ano, o mercado cripto só voltou a engatar tendência sustentada quando o Fed sinalizou claramente o início do afrouxamento. Em 2022, o índice atacadista chegou ao pico de 11,7% em março, e o Bitcoin perdeu 60% até novembro daquele ano. O paralelo não é mecânico, mas reforça o peso macro sobre o ativo.
No Brasil, o impacto chega por dois canais. O primeiro é o câmbio: dólar pressionado por inflação americana mantém o real fraco, o que historicamente reduz alocação de fundos locais em risco. O segundo é a paridade direta — o BTC cotado em reais reflete tanto a queda do ativo quanto qualquer desvalorização adicional da moeda brasileira. A combinação amplifica perdas em janelas curtas, algo que saques recentes em ETFs spot já vinham antecipando.