- Investidores japoneses despejaram US$ 29,6 bilhões em Treasuries no 1º trimestre
- Juro do JGB de 10 anos sobe a 2,6%, maior nível desde 1997
- Bitcoin opera perto de US$ 78 mil e falha em retomar média de 200 dias
O bitcoin enfrenta um vento contrário cada vez mais nítido vindo do mercado de juros americano. Investidores japoneses se desfizeram de US$ 29,6 bilhões em títulos do Tesouro dos EUA, dívidas de agências e papéis de autoridades locais no primeiro trimestre de 2026. Foi a maior venda líquida trimestral desde o segundo trimestre de 2022, segundo dados do TIC compilados pela Bloomberg.
O Japão segue como o maior detentor estrangeiro de Treasuries, com US$ 1,24 trilhão em fevereiro de 2026. Reino Unido aparece em segundo, com US$ 897,3 bilhões, e a China continental em terceiro, com US$ 693,3 bilhões. A venda recente representa cerca de 2,4% do estoque japonês pequena em termos absolutos, mas decisiva na margem.
Por que o capital japonês volta para casa
O gatilho está em Tóquio. O juro do título japonês de 10 anos cruzou os 2,6%, maior patamar desde 1997. O papel de 30 anos chegou a 4%. O Banco do Japão (BOJ) reduziu suas compras mensais de JGBs de US$ 5,7 trilhões em agosto de 2024 para US$ 2,9 trilhões neste trimestre, retirando o teto que mantinha rendimentos domésticos próximos de zero.
Em abril, o BOJ manteve o juro básico em 0,75%, mas três dos nove membros do comitê votaram por alta. A projeção de inflação para o ano fiscal de 2026 subiu para 2,8%. Quando bonds japoneses pagam mais, instituições do país perdem o incentivo para buscar renda lá fora e foram justamente esses fluxos que sustentaram a demanda por Treasuries por mais de uma década.
A Reuters reportou que a venda de bonds estrangeiros por investidores japoneses continuou em abril, embora em ritmo mais lento. O Citigroup alertou que, somente pela volatilidade dos JGBs, fundos de paridade de risco podem ser forçados a despejar até US$ 130 bilhões em títulos americanos.
Impacto direto no Bitcoin
O juro de 30 anos americano tocou 5% no fim de abril. O de 10 anos chegou a 4,54% em meados de maio, máxima de 12 meses. O CME FedWatch agora atribui mais de 44% de chance de o Fed subir juros até dezembro de 2026, reversão completa em relação aos cortes precificados no início do ano. O CPI de abril veio em 3,8%, reforçando a tese de juros altos por mais tempo.
O bitcoin sentiu. O ativo opera em US$ 77 mil e falhou em fechar acima da média móvel de 200 dias, em US$ 82.228, em cinco tentativas seguidas. Em cenários de aperto monetário, o BTC se comporta como ativo de alta beta ligado à liquidez global. Um Treasury de 30 anos pagando 5% compete diretamente com qualquer dólar alocado em criptoativos. O cenário também afeta o investidor brasileiro, dólar forte tende a pressionar o real e elevar o preço do BTC em moeda local, mesmo com o dólar caindo lá fora efeito já observado em episódios recentes da crise dos Treasuries.
O outro lado da tese
Há uma leitura oposta entre defensores estruturais do bitcoin. A OCDE projeta empréstimos brutos de cerca de US$ 18 trilhões entre seus membros em 2026, com captação líquida perto de US$ 4 trilhões a segunda maior já registrada. Os custos de financiamento de longo prazo do G7 estão nas máximas em duas décadas, conforme o Global Debt Report da OCDE.
Se o maior comprador estrangeiro de Treasuries recua justamente quando governos precisam emitir um volume recorde, a credibilidade da dívida soberana americana como âncora livre de risco entra em xeque. Esse é o argumento histórico dos defensores do BTC como “dinheiro fora do sistema”. O movimento dialoga com a discussão sobre fluxo de capital necessário para destravar o próximo ciclo.
No curto prazo, vence a matemática dos juros, yields subindo, dólar firme e saques pesados nos ETFs spot. No horizonte mais longo, a fragilidade fiscal global tende a sustentar a tese de reserva alternativa. O bitcoin vive os dois cenários ao mesmo tempo um pressionando o preço hoje, outro fortalecendo a narrativa para os próximos anos.