- Bitcoin cai mais de 5% e perde US$ 68 mil pela primeira vez desde abril
- Liquidações somam US$ 394 milhões em uma hora, com 97% em posições compradas
- Venda simbólica de 32 BTC pela Strategy precede tombo e abala narrativa corporativa
Um movimento brusco derrubou o bitcoin abaixo de US$ 68 mil nesta terça-feira e produziu uma onda de liquidações forçadas no mercado de derivativos. Em apenas 60 minutos, cerca de US$ 394 milhões em posições alavancadas viraram pó, segundo dados da Coinglass.
A queda foi rápida e violenta. O bitcoin recuou de US$ 71.765 para US$ 67.895, perda superior a 5% que levou o ativo ao menor patamar desde abril. No momento desta publicação, o BTC é negociado a US$ 67.167, equivalente a R$ 337.628 na cotação spot brasileira.
O tombo contaminou todo o ecossistema. Ethereum cedeu cerca de 3% e opera perto de US$ 1.906. O XRP caiu para US$ 1,22, enquanto Solana, Dogecoin e BNB registraram perdas entre 2% e 5% no intervalo. TON liderou o ranking negativo entre as grandes capitalizações, com recuo de 7,2% em 24 horas.
Longs dominam as liquidações

O desequilíbrio das ordens fechadas à força revela o tamanho da aposta otimista que estava montada. Das posições liquidadas na primeira hora, US$ 384 milhões eram compradas. Apenas US$ 10,2 milhões foram em shorts. A proporção mostra um mercado posicionado quase unilateralmente para a alta.
O bitcoin respondeu pelo maior volume liquidado: US$ 209 milhões. O ethereum teve US$ 87 milhões em posições zeradas, seguido por Solana (US$ 27 milhões) e XRP (US$ 11 milhões). No acumulado de 24 horas, o total de liquidações chegou a US$ 1,02 bilhão, com US$ 902 milhões em longs.
O mecanismo é conhecido por traders mais experientes. Quando o preço perfura zonas de stop, as corretoras fecham automaticamente contratos sub-colateralizados. Esse encerramento forçado adiciona ordens de venda ao livro, empurra o preço ainda mais para baixo e dispara novas liquidações. Foi exatamente esse círculo vicioso que se viu hoje.
Venda da Strategy pesou no humor
O gatilho narrativo veio de uma fonte improvável. Em 1º de junho, a Strategy, empresa de Michael Saylor e principal referência da estratégia corporativa de acumulação de Bitcoin, vendeu 32 BTC por US$ 2,5 milhões para cumprir obrigações relacionadas ao pagamento de dividendos de suas ações preferenciais.
O volume é estatisticamente irrelevante diante do giro diário do mercado spot global. Mas o impacto simbólico foi outro. A Strategy escreveu, na prática, o manual do “never sell” corporativo. Romper esse princípio — mesmo que minimamente — abriu espaço para questionamentos sobre a sustentabilidade da tese de tesouraria em bitcoin que outras empresas vinham copiando. O assunto está sendo debatido inclusive no Polymarket, onde uma disputa de US$ 85 milhões discute se a operação caracteriza venda efetiva.
Suportes on-chain rompidos
Além disso, o recuo levou o preço para baixo de várias referências importantes monitoradas pela Glassnode. O custo médio dos holders de curto prazo, em US$ 76.900, foi perdido. A média real do mercado (US$ 78.000) também ficou para trás, assim como o nível de investidores ativos em US$ 85.100. O suporte estrutural seguinte, o preço realizado agregado de US$ 54.000, ainda está distante.
Assim, Pierre Rochard, CEO da Bitcoin Bond Company, minimizou o peso da operação da Strategy em publicação no X. Para ele, o que drena liquidez do cripto agora é a corrida parabólica nas ações ligadas à inteligência artificial. Rochard também apontou para o mercado de trabalho americano resiliente e a alta dos preços de energia, fatores que enterraram, no curto prazo, a expectativa de cortes de juros pelo Federal Reserve.