- Open USD reúne 140 empresas, incluindo Visa, Mastercard e Coinbase
- Modelo repassa receita de reservas a parceiros e pressiona USDC
- Ações da Circle caíram até 17% no dia do anúncio
A briga entre stablecoins entrou em uma nova fase, e o campo de batalha agora é o rendimento das reservas. O Open USD, projeto liderado pelo consórcio Open Standard, chega com mais de 140 empresas parceiras — entre elas Visa, Mastercard e Coinbase — e propõe algo que USDT e USDC nunca ofereceram: repartir a receita das reservas com os negócios que distribuem o token.
A promessa é direta. Empresas parceiras podem cunhar e resgatar Open USD gratuitamente, sem limite de volume, e recebem parte dos ganhos gerados pelas reservas em títulos do Tesouro americano, descontada uma taxa de administração. A governança fica em um conselho formado pelos próprios parceiros, o que muda a lógica de quem captura valor no ecossistema.
Circle perde 17% em um dia
O mercado leu o recado na hora. As ações da Circle, emissora do USDC, chegaram a cair 17% no pregão do anúncio, tocando US$ 63. O motivo é aritmético: o modelo de negócio da Circle depende justamente da receita de reservas, e o Open USD ataca esse fluxo oferecendo divisão mais generosa a um leque muito maior de distribuidores.
Os números do primeiro trimestre de 2026 mostram o tamanho do bolo em disputa. A Circle registrou US$ 653 milhões em receita de reservas contra US$ 407 milhões em custos de distribuição e transação, valor que a própria empresa admitiu ter crescido devido a pagamentos mais altos a parceiros. O relatório anual de 2025 detalha ainda que parte dessa receita é dividida diretamente com a Coinbase — a mesma Coinbase que agora aparece no consórcio Open USD.
Para dimensionar o prêmio, o DeFiLlama aponta oferta total de stablecoins próxima de US$ 312 bilhões, com USDT em US$ 184,6 bilhões e USDC em US$ 73,9 bilhões. O Citi elevou sua projeção para o setor a US$ 1,9 trilhão em 2030 no cenário base, e US$ 4 trilhões no otimista. A cada US$ 1 bilhão em circulação, um rendimento de 3,7% ao ano — próximo do yield atual das T-bills — gera cerca de US$ 37 milhões brutos.
Como o incentivo chega ao usuário DeFi
O desenho contorna o GENIUS Act, que proíbe emissores de stablecoins de pagar juros diretamente aos detentores, mas deixa uma zona cinzenta para afiliadas e terceiros. Coinbase já paga rendimento sobre saldos em USDC e a PayPal faz o mesmo com o PYUSD, prática que bancos americanos classificam como manobra para drenar depósitos do sistema regulado.
O Open USD amplia esse modelo. Parceiros como Aave, Morpho, MetaMask e Trust Wallet podem converter sua fatia de receita em liquidity mining, taxas turbinadas de empréstimo, cashback em carteiras ou rebates em pontes. O lançamento nativo está previsto para as redes Plasma e Tempo ainda em 2026, e a Plasma já se posiciona como cadeia focada em gastar, poupar e render em stablecoin via produto Plasma One.
Sinal para carteiras que operam DeFi no Brasil
Para o usuário brasileiro que já roda estratégias em Aave ou Morpho, o cálculo fica interessante. Se o repasse de reserva virar APY adicional sobre Open USD em pools de empréstimo, o token pode competir de igual para igual com USDC e USDT como colateral. O consórcio que reúne Ripple e BlackRock ao lado da Visa dá musculatura regulatória rara em iniciativas do gênero.
Vale lembrar que a Receita Federal brasileira já trata rendimentos em stablecoin como ganho tributável em IR mensal, e programas de cashback em USD podem entrar na mesma linha. Quem opera via protocolos DeFi precisará documentar a origem dos rewards, sobretudo se o Open USD ganhar tração em exchanges locais.
Os próximos meses definem se o modelo consegue furar a liquidez concentrada de USDT e USDC. Sem profundidade de mercado nem suporte amplo como colateral, mesmo uma stablecoin com incentivos superiores tende a ficar restrita ao trilho corporativo de liquidação — que já é o feudo natural de emissores institucionais.