- Volume spot do Bitcoin na Binance recua 81% desde outubro de 2025
- Bybit perde 66% e Gate.io tem queda de quase 80% no período
- Padrão repete o fundo de julho de 2023 e sugere exaustão vendedora
O bitcoin opera próximo de US$ 75.802 (cerca de R$ 380 mil) e ainda defende o suporte psicológico dos US$ 75 mil, mas a leitura mais relevante do momento não está no gráfico de preço. Está no livro de ordens. O volume spot da maior criptomoeda do mundo derreteu para níveis vistos pela última vez em julho de 2023, no auge do bear market anterior.
Os dados são do analista on-chain Darkfost, que cruzou o fluxo das principais exchanges via CryptoQuant. Na Binance, que concentra a maior fatia de liquidez global, o volume negociado caiu de cerca de US$ 198,6 bilhões em outubro de 2025 para aproximadamente US$ 36,4 bilhões agora. Queda de 81% em pouco mais de seis meses.
O movimento não é exclusivo da líder de mercado. A Gate.io registrou recuo próximo de 80%, enquanto a Bybit viu o giro encolher 66% no mesmo intervalo. Quando três das maiores corretoras globais perdem participação simultaneamente, a leitura é de um mercado sem combustível especulativo — e não apenas de migração entre plataformas.
O que causou a fuga de liquidez
O pano de fundo macro ajuda a explicar o esvaziamento. A inflação persistente nos Estados Unidos, a dúvida sobre o ritmo de cortes do Fed e o conflito entre EUA e Irã, que se estendeu além do previsto pelos mercados, redirecionaram capital para ativos tradicionais. Commodities, energia e índices acionários absorveram parte do fluxo que antes ia para risco digital.
O efeito local também pesa. Investidores brasileiros sentiram o dólar acima de R$ 5,02 corroer o poder de compra em cripto, e exchanges nacionais relatam queda de ticket médio desde novembro. O movimento dialoga com o que já se via no fluxo dos ETFs, que registraram saídas bilionárias e ampliaram a sensação de fadiga entre alocadores institucionais.
Para completar o quadro, gestoras como a BlackRock reduziram exposição direta ao ativo. As recentes vendas de US$ 1 bilhão via IBIT retiraram um pilar de demanda que sustentou a tese de adoção corporativa ao longo de 2025.
Por que o padrão lembra 2023
Darkfost argumenta que o cenário, embora pareça bearish à primeira vista, tem nuances históricas relevantes. Quedas prolongadas no volume spot costumam marcar o estágio FINAL de correções, não o início de colapsos. A lógica é simples: à medida que participantes desistem, a pressão vendedora também perde força. Quem queria sair, saiu.
Foi exatamente esse o desenho de julho de 2023, quando o giro nas exchanges chegou a patamares deprimidos e o bitcoin estabilizou na faixa dos US$ 29 mil antes da virada que culminou no rali pós-aprovação dos ETFs em janeiro de 2024. O analista lê o momento atual como possível repetição estrutural daquele fundo.
Há, claro, diferenças importantes. Em 2023 o mercado vinha de um colapso de confiança causado por FTX, Celsius e Three Arrows. Agora, o estresse é macroeconômico e geopolítico, não estrutural. Para o investidor brasileiro, isso significa que a recuperação, quando vier, pode depender menos de catalisadores internos do cripto e mais de uma virada na política monetária americana.
O que observar no gráfico
Tecnicamente, o bitcoin consolida acima da média móvel de 50 dias, perto dos US$ 76 mil. A zona entre US$ 73 mil e US$ 75 mil virou suporte horizontal estrutural, defendida por compradores ao longo de maio. Acima, a resistência segue na faixa de US$ 80 mil a US$ 82 mil, região rejeitada pelo preço no início do mês.
As médias de 100 e 200 dias seguem inclinadas para baixo, reforçando que o ativo permanece em ambiente corretivo amplo. Uma retomada decisiva acima dos US$ 82 mil reabriria espaço para revisitar os US$ 91 mil. A perda dos US$ 75 mil, por outro lado, expõe o gráfico a um teste da região de US$ 70 mil — cenário traçado por uma leitura recente de bear flag que ainda não foi invalidada.