- Liquidações de posições longas em BTC e ETH somaram US$ 8,35 bilhões no 2º tri
- Open interest do Bitcoin caiu 32% e o do Ether recuou 40% desde o pico
- ETFs à vista de BTC nos EUA acumulam US$ 5,5 bilhões em saídas no ano
O mercado de cripto abriu o terceiro trimestre de 2026 mais leve em alavancagem, porém com livros de ordens rarefeitos. É o retrato traçado pela provedora de dados institucionais Talos em relatório divulgado nesta semana, que aponta a soma de US$ 8,35 bilhões em liquidações de posições longas de Bitcoin e Ether entre abril e junho.
A limpeza forçada de especuladores coincidiu com três frentes de fraqueza na demanda: saques nos ETFs à vista de Bitcoin nos Estados Unidos, recuo agressivo nas compras da Strategy, de Michael Saylor, e contração no fornecimento global de stablecoins. O resultado é um mercado menos vulnerável a efeito dominó, mas mais suscetível a oscilações bruscas quando ordens grandes chegam ao book.
O Bitcoin era negociado nesta quarta-feira a US$ 58.636 — cerca de R$ 303,6 mil na conversão pelo dólar comercial em R$ 5,17. O Ether operava a US$ 1.570, refletindo a fase de acomodação após o desmonte da alavancagem.
Open interest derrete em BTC e ETH
Segundo a Talos, o open interest do Bitcoin — valor total de contratos de derivativos em aberto — caiu para US$ 33,5 bilhões, uma retração de 32% em relação ao pico do segundo trimestre. Em Ether, o encolhimento foi ainda mais severo: 40% de queda, para US$ 16,2 bilhões.
O reset joga o mercado para um regime raro nos últimos anos, quando o funding rate perpétuo persistentemente positivo alimentava rolagens de posições compradas. Sem esse combustível, movimentos direcionais tendem a depender mais de fluxo à vista — justamente o elo que também dá sinais de fadiga. O padrão dialoga com o funding negativo observado em XRP e ETH, historicamente associado a bases de médio prazo.
A liquidez à vista, porém, é o ponto sensível. A profundidade de livro do Bitcoin a 2% do preço de mercado — soma de ordens de compra e venda próximas — despencou de cerca de US$ 70 milhões no início de maio para uma faixa entre US$ 35 milhões e US$ 40 milhões no fim de junho. O volume trimestral em exchanges à vista caiu 28%, para US$ 2,32 trilhões.
IBIT perde força e Saylor desacelera
A demanda institucional, motor da alta em 2024, arrefeceu bem antes do fim do trimestre. Em 25 de junho, os ETFs à vista de Bitcoin nos EUA registraram saque líquido diário de US$ 696,3 milhões. O mês fechou com aproximadamente US$ 4,5 bilhões em saídas, elevando o acumulado do ano para US$ 5,5 bilhões — quadro detalhado no ritmo do IBIT como muro de venda.
A Strategy seguiu trajetória parecida. A empresa de Saylor comprou apenas cerca de 3.600 BTC em junho, contra 25 mil BTC em maio e mais de 50 mil BTC em abril. Houve inclusive uma venda líquida de 32 BTC no meio do mês. O tesouro encerrou junho com 847.363 bitcoins, adquiridos a um preço médio de US$ 64.103 — acima do preço atual, o que coloca a companhia em posição desconfortável e alimenta a discussão sobre um eventual programa de venda autorizado pelo conselho.
O que muda para o investidor do real
No Brasil, exchanges como Mercado Bitcoin e Foxbit já reportam ticket médio menor em junho, refletindo o desânimo global. Investidores que operam contratos futuros em corretoras estrangeiras enfrentam livros mais finos — o que aumenta a chance de slippage em ordens acima de R$ 500 mil, especialmente em altcoins.
A queda de 28% no volume à vista global também tem leitura fiscal relevante: com preços do Bitcoin em R$ 303 mil, abaixo da média de compra de muitos brasileiros que entraram no ciclo pós-halving, a apuração de prejuízos acumulados pode ser usada para compensação de ganhos futuros na declaração do Imposto de Renda, conforme regras da Receita Federal para operações com criptoativos acima de R$ 35 mil mensais.