Mineradoras de Bitcoin viram data centers de IA e travam US$ 70 bilhões

  • Mineradoras listadas acumulam mais de US$ 70 bilhões em contratos de IA e HPC
  • Cesta de ações de mineradoras sobe 56% no ano enquanto Bitcoin recua 17%
  • Setor liquidou mais de 15 mil BTC em tesouraria para bancar pivô para IA

As principais mineradoras de Bitcoin listadas em bolsa estão deixando de ser empresas de cripto. Em 2026, contratos com clientes de inteligência artificial e computação de alta performance já somam mais de US$ 70 bilhões no setor, segundo levantamento da 10X Research.

O descompasso com o ativo que essas empresas foram criadas para produzir nunca foi tão grande. Enquanto o Bitcoin cai cerca de 17% no ano e é negociado a US$ 60.541 (R$ 314.624), uma cesta de ações de mineradoras acumula alta de 56%. Algumas individuais vão além: a TeraWulf sobe mais de 73% no mesmo período.

O mercado parou de precificar essas companhias pelo quanto mineram. Passou a olhar para a capacidade contratada de fornecer energia e infraestrutura para treinar modelos de IA.

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Hut 8, TeraWulf e IREN lideram os contratos

A Hut 8 assinou um arrendamento de 15 anos no valor de US$ 9,8 bilhões para uma instalação de 352 megawatts em Nueces County, Texas, construída sobre a arquitetura de referência da NVIDIA. Em teleconferência recente, a empresa afirmou que o Bitcoin deixou de ser foco estratégico de longo prazo.

A TeraWulf trava US$ 12,8 bilhões em contratos de HPC, ancorados pela Fluidstack — apoiada pelo Google. No primeiro trimestre de 2026, a IA já respondeu por US$ 21 milhões dos US$ 34 milhões de receita total. A projeção interna é fechar o ano com 70% da receita vinda de computação, não de mineração.

A IREN, maior do grupo por valor de mercado, fechou um acordo de US$ 9,7 bilhões com a Microsoft para hospedar 76 mil GPUs NVIDIA GB300 em Childress, Texas. A empresa não mantém um único satoshi em tesouraria opção declarada como estratégica. Core Scientific, Galaxy Digital e Cipher Digital seguem o mesmo roteiro, conforme detalhou o comunicado da Hut 8 no X e os releases trimestrais das companhias.

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Venda de 15 mil BTC para bancar a transição

O custo dessa virada não é trivial. As mineradoras listadas reduziram suas reservas em mais de 15.000 BTC a partir dos picos recentes. Apenas a Core Scientific vendeu cerca de 1.992 moedas em março, levantando US$ 175 milhões para financiar a transição operacional. A leitura editorial é direta: quem produz Bitcoin agora vende Bitcoin para se transformar em outra coisa.

A dívida também cresceu. A IREN carrega US$ 3,7 bilhões em notas conversíveis. A TeraWulf chegou a US$ 5,7 bilhões em passivo total. A Cipher emitiu US$ 1,7 bilhão em notas seniores, e sua despesa trimestral com juros saltou de US$ 3,2 milhões em nove meses para US$ 33,4 milhões em um único trimestre. São balanços de operadora de data center, não de empresa de cripto. Bernstein já vinha tratando essas companhias como senhorias de energia da IA.

Hashrate cai e pressão vendedora bate no preço

O efeito sobre a rede já aparece nos dados. O Bitcoin registrou em 2026 a primeira queda de hashrate em um primeiro trimestre em seis anos. A participação das pools norte-americanas em blocos minerados caiu de 40% para 35% ao longo de 2025, conforme migração para infraestrutura de IA.

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Para o investidor brasileiro, a leitura é dupla. Primeiro, a tese de Michael Saylor de que a corrida da IA está drenando capital do Bitcoin ganha evidência empírica nas próprias mineradoras. Segundo, projetos locais como o anunciado por Tether e Adecoagro no Brasil ficam em rota de colisão com a precificação global de energia, que passou a ter um comprador disposto a pagar contratos de 15 anos em dólar.

Contratos de 15 anos tornam o movimento irreversível

Analistas que testaram cenários de retorno do Bitcoin a US$ 80 mil concluíram que a migração é praticamente unidirecional. Quem trava um arrendamento de década e meia com hyperscaler não desmonta o data center para voltar a minerar caso o BTC suba. A capacidade convertida não volta.

O risco do outro lado também existe. Se a demanda por IA esfriar ou os cronogramas atrasarem, as margens contratadas de 25% deixam de cobrir o serviço da dívida. Reguladores estaduais nos EUA já discutem preço de energia e uso de água, e cargas de IA, ao contrário da mineração, não podem ser desligadas em picos de demanda.

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Entusiasta de criptomoedas e tecnologia. Sempre explorando novas tecnologias inovadoras. Nos momentos livres, gosto de jogar e assistir futebol.