- China já responde por 14% a 20% da mineração de Bitcoin global.
- Vendas de mineradoras locais dispararam e dobraram em dois anos.
- Regiões como Xinjiang e Sichuan usam energia excedente para lucrar com o Bitcoin.
A atividade de mineração de Bitcoin voltou a crescer na China, apesar da proibição de 2021.
O avanço ocorre em regiões com energia barata, centros de dados ociosos e incentivos econômicos ligados ao preço mais alto do BTC.
Da proibição ao retorno discreto da mineração
A China dominava 65% do poder de mineração global antes do banimento de 2021. O governo interrompeu a atividade por riscos financeiros, alto consumo de energia e controle de capitais. O hashrate mundial caiu logo após a medida, mas outros países absorveram rapidamente a capacidade desligada.
A partir de 2024, porém, a mineração voltou a aparecer em Xinjiang, Sichuan e províncias do oeste. São operações menores, menos visíveis e instaladas em áreas com eletricidade excedente. Segundo o Hashrate Index, a China já responde por 14% da mineração global. Para a CryptoQuant, o número pode chegar a 20%.
Há ainda sinais comerciais fortes dessa retomada. A Canaan, uma das maiores fabricantes de máquinas de mineração, tinha apenas 2,8% da receita vinda da China em 2022. Em 2023, saltou para 30%. No segundo trimestre de 2025, superou 50%, mostrando a forte volta da demanda interna.
O analista Jason Xu, da CryptoQuant, afirmou ao Reuters:
“A combinação de energia barata, data centers ociosos e preço alto do Bitcoin tornou a mineração novamente atraente no país.”
Regiões com energia excedente impulsionam a retomada
Grande parte da atividade está concentrada em regiões com abundância energética. Xinjiang tem grandes usinas de carvão e vento. Sichuan, por sua vez, se destaca pela hidreletricidade de baixo custo durante a estação chuvosa.
Nesses locais, a energia que não pode ser transmitida para centros urbanos encontra na mineração um uso imediato e lucrativo.
Além disso, várias províncias construíram data centers em excesso. Quando a demanda fica abaixo do esperado, operadores passam a alugar espaço e energia para mineradores, evitando prejuízos. Dessa forma, esses centros se transformaram em novos polos discretos de mineração.
Outro ponto decisivo é o preço do Bitcoin. Desde 2024, a valorização do ativo aumentou as margens e reduziu o risco operacional. Portanto, energia barata e recompensas elevadas criaram um ambiente ideal para a retomada da atividade.
Mudança gradual na postura da China sobre ativos digitais
A política chinesa evoluiu de uma rejeição total para uma abordagem mais estratégica. Hong Kong, por exemplo, lançou em 2025 um regime formal de licenças para stablecoins, o que sinaliza maior abertura regulatória.
No continente, autoridades estudam stablecoins lastreadas no yuan e ampliam o uso do e-CNY em serviços públicos e testes transfronteiriços. Além disso, o governo busca formas de fortalecer a infraestrutura financeira por meio de tecnologias digitais.
Embora criptomoedas privadas continuem proibidas, a China permite iniciativas que gerem eficiência energética ou inovação local. Nesse contexto, a mineração baseada em energia excedente se encaixa perfeitamente na estratégia econômica do país.
Pragmatismo e impacto global
A retomada mostra um pragmatismo crescente: o país não apoia o Bitcoin como ativo financeiro, porém aproveita oportunidades criadas por sua matriz energética e capacidade de dados. Por isso, mesmo com restrições, a atividade volta a crescer.
Consequentemente, o movimento reforça a resiliência global do Bitcoin, que continua a se adaptar a mudanças políticas, econômicas e geográficas. Assim, a rede mantém sua força mesmo diante de pressões estatais e realocações estratégicas.

