- Setor de stablecoins recua para US$ 323,05 bilhões com saídas líquidas de US$ 90 milhões
- Tether mantém domínio absoluto com 58,65% de participação e US$ 76,6 bi em USDC
- USD1 da World Liberty Financial salta 6,2% e atrai US$ 281 milhões em entradas
O mercado de stablecoins encerrou a semana em retração, refletindo o humor azedo do restante do setor cripto. Segundo dados da DefiLlama deste sábado (23), a capitalização agregada caiu para US$ 323,052 bilhões, com saídas líquidas próximas de US$ 90,01 milhões nos últimos sete dias. A queda foi modesta em termos relativos, mas reforça um movimento que já preocupa analistas: a concentração de liquidez nas mãos de poucos emissores.
As cinco maiores moedas atreladas ao dólar somam, juntas, US$ 284,323 bilhões em valor de mercado. Isso equivale a 88,01% de todo o capital parado em ativos pareados à moeda americana. Em um setor que se vende como pilar de descentralização, o quadro mostra o oposto.
Tether e Circle mantêm domínio
A Tether (USDT) segue intocável na liderança, com 58,65% de participação. A emissora registrou queda semanal de apenas 0,12%, comportamento típico de um ativo que funciona como reserva operacional de exchanges globais. No Brasil, USDT continua sendo o principal corredor de saída entre real e cripto em plataformas como Mercado Bitcoin, Foxbit e Bitso.
Logo atrás, a USDC da Circle mantém o segundo lugar com US$ 76,619 bilhões, mesmo após recuo de 0,58% na semana. A distância para a Tether passa de US$ 100 bilhões — abismo que ajuda a explicar por que reguladores europeus e americanos passaram a tratar emissores de stablecoin como infraestrutura sistêmica. A diferença ficou ainda mais evidente após o alerta do BCE sobre stablecoins e o risco bancário associado.
O terceiro posto pertence ao USDS da Sky, com US$ 8,861 bilhões e alta de 0,79% no período. Uma das poucas pontuações positivas entre os pesos-pesados.
USD1 da World Liberty rouba a cena
O destaque semanal veio do USD1, stablecoin da World Liberty Financial — projeto ligado à família Trump. O token avançou 6,20%, capturou cerca de US$ 281 milhões em entradas líquidas e cravou a quarta posição com US$ 4,801 bilhões em valor de mercado. O fôlego ganha contexto após a Binance abrir o par USD1/BTC em sua plataforma, ampliando a liquidez do ativo entre traders asiáticos.
Fechando o top 5 está o veterano DAI, também da Sky, com US$ 4,574 bilhões e recuo de 0,85%. A queda lenta do DAI desde a migração para a marca Sky ilustra um padrão: stablecoins descentralizadas perdem espaço para concorrentes centralizadas com exposição a Treasuries.
Ethena, PayPal e BlackRock disputam o meio da tabela
Na sexta colocação, o USDe da Ethena chegou a US$ 4,443 bilhões com salto semanal de 4,96%. O sintético segue atraindo capital interessado em rendimento via funding rates de derivativos. Em sétimo, o PYUSD do PayPal avançou 4,26% e chegou a US$ 3,607 bilhões — sinal de que o produto começa a ganhar tração depois de meses de estagnação.
O BUIDL da BlackRock ocupa a oitava posição com US$ 3,055 bilhões, mas amargou queda de 5,29%. O produto, tokenizado e lastreado em Treasuries, é referência no setor de RWAs e tem chamado atenção de gestores como a Dragonfly, que recentemente captou US$ 650 milhões mirando justamente DeFi, stablecoins e ativos do mundo real.
O USYC da Circle aparece em nono com US$ 2,983 bilhões e leve alta de 0,36%. O USDG da Global Dollar fecha o top 10 com US$ 2,633 bilhões, mas sofreu o pior tombo semanal entre os grandes: -9,62%.
O que a foto da semana diz ao investidor brasileiro
O recuo de US$ 90 milhões é pequeno frente aos US$ 323 bilhões totais, mas a leitura qualitativa importa mais que o número absoluto. Quando o mercado cripto perde tração, o capital tende a migrar para stablecoins — não a sair delas. O movimento contrário sugere que parte dos investidores está sacando dólar digital para o sistema bancário tradicional, comportamento típico de aversão a risco prolongada. Para quem opera no Brasil, isso significa atenção redobrada com spreads de saída em USDT durante janelas de baixa liquidez.