- Brasil lidera na América Latina e ocupa 5º lugar global em adoção cripto
- Tokenização avança em crédito privado, recebíveis e ativos judiciais
- Desafio agora é jurídico: falta de integração limita entrada de capital global
O Brasil ganhou protagonismo no mercado global de criptomoedas e tokenização, impulsionado por uma combinação de demanda real, inovação financeira e avanços regulatórios. A avaliação vem de Jeremy Ng, fundador e CEO da OpenEden, que aponta o país como um dos casos mais relevantes para entender como ativos digitais se consolidam na prática, especialmente em economias emergentes.
Segundo o executivo, o Brasil se destaca não necessariamente por liderar em sofisticação tecnológica, mas por refletir necessidades concretas do mercado. “O Brasil é um dos mercados mais reveladores para a tokenização hoje, não porque seja o mais avançado, mas porque reflete demanda real”, afirmou. Ele lembra que o país ocupa a quinta posição no índice global de adoção de criptomoedas da Chainalysis em 2025 e lidera a América Latina em volume e participação de investidores.
Essa demanda se traduz em casos de uso específicos que já ganharam escala. No Brasil, a tokenização de crédito privado, recebíveis e ativos judiciais avançou rapidamente porque resolve problemas estruturais, como custos elevados e fragmentação de mercado. Na visão de Ng, esse diferencial explica por que o país segue um caminho distinto de mercados mais desenvolvidos. “Enquanto o Brasil avança no crédito privado, outras regiões se apoiam em mercados públicos líquidos, como títulos soberanos e fundos de mercado monetário”, explicou.

Brasil na revolução cripto
O ambiente institucional também evolui. A B3 lançou iniciativas voltadas à tokenização e anunciou o desenvolvimento de uma stablecoin, enquanto o Banco Central estruturou um regime de licenciamento para provedores de serviços de ativos virtuais. Para o executivo, esses movimentos indicam que a infraestrutura tradicional começa a se adaptar às novas demandas digitais, criando uma base para expansão do setor.
Apesar do avanço, Ng adota um tom cauteloso ao falar sobre o futuro. Ele não acredita em uma migração completa e imediata de mercados tradicionais para blockchain. “Nos próximos cinco anos, não espero que ações migrem totalmente para o ambiente on-chain”, disse. Segundo ele, o cenário mais provável envolve uma integração gradual, com ativos tokenizados ganhando espaço como colateral, instrumentos de rendimento e meios de liquidação entre instituições financeiras.
Esse processo, na avaliação do executivo, depende de fundamentos sólidos antes de atingir escala global. A tokenização tende a crescer primeiro dentro das estruturas existentes, ganhando confiança e utilidade prática, para só então avançar para segmentos mais complexos, como o mercado acionário.
No caso brasileiro, o principal desafio não está na tecnologia, mas na estrutura jurídica e regulatória. Ng alerta que a ausência de garantias legais claras sobre a propriedade de ativos digitais pode limitar o acesso a capital internacional. “Sem enforceabilidade jurídica da propriedade on-chain e alinhamento regulatório entre países, o capital global terá dificuldade para acessar o mercado brasileiro”, afirmou.
Esse cenário coloca o Brasil em uma posição estratégica. O país já demonstrou capacidade de inovação e adoção em larga escala, mas ainda precisa avançar na integração com o sistema financeiro global. Para analistas, o próximo ciclo de crescimento dependerá justamente dessa conexão entre eficiência local e interoperabilidade internacional.

