- Itaú será o único banco brasileiro no grupo inicial de 17 instituições que testará a blockchain da Swift para remessas internacionais.
- A nova infraestrutura permitirá movimentar depósitos tokenizados 24 horas por dia, inclusive à noite, em fins de semana e feriados.
- O projeto busca unir a disponibilidade contínua da blockchain aos controles de compliance, risco e segurança do sistema financeiro tradicional.
O Itaú Unibanco vai testar uma infraestrutura baseada em blockchain desenvolvida pela Swift para realizar pagamentos internacionais com depósitos tokenizados. O maior banco privado brasileiro integra um grupo de 17 instituições financeiras de seis continentes que se prepara para participar de um piloto com transações reais e disponibilidade durante 24 horas por dia, sete dias por semana.
A iniciativa coloca o Itaú entre os primeiros bancos do mundo a experimentar o novo ledger da Swift, que avançou da fase conceitual para a etapa inicial de uso após nove meses de desenvolvimento. A organização pretende combinar a disponibilidade contínua das redes blockchain com controles de compliance, gestão de risco, crédito e segurança presentes no sistema financeiro tradicional.
Assim, a mudança não representa uma substituição imediata dos sistemas bancários atuais. Na fase inicial, os bancos poderão iniciar e coordenar transferências de depósitos tokenizados a qualquer hora. Isso será possível inclusive durante madrugadas, fins de semana e feriados. Enquanto isso, os sistemas financeiros existentes continuarão responsáveis pela liquidação final das operações.
O Itaú aparece como o único banco brasileiro entre os participantes anunciados pela Swift. A lista também reúne ANZ, BNP Paribas, BNY, Citi, DBS, First Abu Dhabi Bank, FirstRand Bank, HSBC, Lloyds Bank, Mashreq, MUFG Bank, OCBC, Standard Chartered, UBS, UOB e Wells Fargo.
Blockchain da Swift conecta depósitos emitidos pelos próprios bancos

A nova infraestrutura funciona como uma camada compartilhada de coordenação entre as instituições participantes. Cada banco poderá emitir e manter seus próprios depósitos tokenizados em seus respectivos registros. Ao mesmo tempo, o ledger da Swift ajudará a coordenar a transferência desses ativos entre diferentes participantes.
Depósitos tokenizados representam uma versão digital de depósitos bancários convencionais. Diferentemente de uma criptomoeda sem emissor central ou, em muitos casos, de uma stablecoin emitida por uma empresa não bancária, esses ativos permanecem como passivos de uma instituição financeira regulada. Além disso, representam direitos sobre recursos depositados no próprio banco.
A proposta ataca uma das limitações históricas das transferências internacionais: a dependência de horários bancários, dias úteis, intermediários e janelas específicas de liquidação. Embora grande parte das mensagens de pagamento enviadas pela rede Swift já alcance o banco beneficiário rapidamente, a conclusão efetiva de uma transferência internacional pode levar mais tempo. Isso ocorre devido a horários de corte, processamento em lotes e participação de bancos intermediários.
Novo modelo
Com o novo modelo, as instituições poderão iniciar movimentações a qualquer momento. A Swift também espera melhorar a eficiência na administração da liquidez e ampliar a visibilidade sobre os fluxos de caixa. Isso ocorrerá sem promover uma ruptura imediata com a infraestrutura que sustenta o sistema financeiro global.
“Com nossa nova capacidade de ledger, estamos estendendo a confiança e a estabilidade das finanças estabelecidas para as fronteiras do dinheiro digital. Isso permite que valores tokenizados atravessem fronteiras com a velocidade e a flexibilidade exigidas pelo comércio moderno, mantendo os mesmos níveis elevados de resiliência, segurança e conformidade exigidos pelas finanças globais”, afirmou Thierry Chilosi, diretor de negócios da Swift.
A organização também vê a infraestrutura como uma possível base para aplicações futuras de dinheiro programável e comércio agêntico. Nesse modelo, sistemas autônomos poderão iniciar e executar determinadas operações financeiras de acordo com regras previamente estabelecidas.
Bancos ampliam disputa pelo dinheiro digital
A iniciativa da Swift insere o Itaú em um movimento mais amplo do setor financeiro para levar depósitos, moedas e outros ativos para infraestruturas baseadas em blockchain. Grandes bancos já desenvolvem soluções próprias para pagamentos programáveis e liquidação contínua. Isso ocorre numa tentativa de combinar recursos tecnológicos popularizados pelo mercado de criptoativos com as exigências regulatórias das finanças tradicionais.
O JPMorgan, por exemplo, opera o JPM Coin, um token de depósito bancário com paridade de um para um com o dólar e voltado a clientes institucionais. A solução permite movimentações e liquidações durante 24 horas por dia.
Na Europa, o consórcio Qivalis reúne 37 instituições financeiras de 15 países para desenvolver uma stablecoin regulada denominada em euro. A iniciativa pretende lançar o ativo no segundo semestre de 2026. Isso está condicionado à aprovação regulatória.
A Société Générale também já opera stablecoins denominadas em euro e dólar por meio da SG-FORGE. A divisão financeira implementou seus dois ativos digitais em diferentes redes blockchain e ampliou sua presença em aplicações de finanças descentralizadas.
O crescimento dessas alternativas, porém, ainda não eliminou a vantagem de escala da Tether. O USDT mantinha cerca de US$ 184,2 bilhões em valor de mercado nesta sexta-feira, 10 de julho, segundo dados da CoinMarketCap, além de ampla presença em blockchains, corretoras e mercados internacionais.
Em maio, o Banco Central Europeu afirmou que Tether e Circle controlavam, juntas, quase 90% do mercado global de stablecoins, que já superava US$ 300 bilhões. O avanço de depósitos tokenizados bancários e de novas stablecoins reguladas amplia a concorrência. No entanto, ainda não permite concluir que o domínio do USDT esteja próximo do fim. Escala, liquidez, integração com plataformas e efeitos de rede continuam favorecendo os atuais líderes do setor.