- Desenvolvedor insere imagem de 66 KB no Bitcoin sem usar OP_Return, contrariando defensores do BIP-110.
- Experimento demonstra que restrições propostas podem ser contornadas e até aumentar o volume de dados.
- Disputa entre Bitcoin Core e Bitcoin Knots sobre “spam” de dados ganha novo capítulo
O debate sobre o limite de dados no Bitcoin ganhou um novo capítulo nesta semana após uma demonstração técnica que desafiou diretamente alguns argumentos centrais do grupo que apoia o BIP-110, proposta que pretende restringir o armazenamento de informações na rede.
O desenvolvedor eslovaco Martin Habovštiak, conhecido por manter uma biblioteca em Rust para o ecossistema, conseguiu inserir uma imagem de 66 kilobytes como uma única transação contínua no blockchain. Ele fez tudo isso sem recorrer ao OP_Return, ao Taproot ou a instruções condicionais como OP_IF. Por consequência, a iniciativa reacendeu discussões intensas entre as comunidades Bitcoin Core e Bitcoin Knots.
A transação, totalmente verificável por qualquer nó completo, pode ser convertida de seu formato hexadecimal bruto para um arquivo TIFF funcional. A imagem retrata Luke Dashjr, desenvolvedor do Bitcoin Knots e um dos principais defensores do BIP-110, chorando.
O gesto, além de provocador, serve como prova de conceito. Mesmo sem os elementos que a proposta deseja restringir, ainda é possível armazenar dados extensos dentro do witness. Habovštiak divulgou instruções completas para reprodução do processo. Assim, ele reforçou seu argumento de que as limitações sugeridas pelos proponentes do BIP-110 não o impedem o armazenamento de grandes volumes de dados. Em alguns casos, essas limitações podem até intensificá-lo.

Desenvolvimentos no Bitcoin
O contexto dessa demonstração é uma disputa que se arrasta desde 2023, quando Dashjr passou a classificar inscrições e armazenamento de dados não financeiros como “spam”. O BIP-110, originalmente apresentado como BIP-444, tenta impor por um ano limites rígidos. Ele limita a apenas 83 bytes para saídas OP_Return, máximo de 256 bytes para dados individuais e restrições adicionais no script.
A medida surgiu após a versão 30 do Bitcoin Core remover limites de dados no OP_Return, criando espaço para novas formas de uso do blockchain. Para Dashjr e seus apoiadores, esse espaço representa um risco legal e técnico para operadores de nós. Além disso, eles acreditam que isso desvia o Bitcoin de seu propósito original como moeda.
A discussão avançou para além do campo técnico e já influencia o comportamento de parte da rede. Hoje, cerca de 8,8% dos nós utilizam implementações compatíveis com o BIP-110, impulsionados pelo crescimento acelerado do Bitcoin Knots desde 2025.
Briga no Bitcoin
Em resposta à crítica de que seu experimento não era contíguo, Dashjr escreveu no X que a transação de Habovštiak “não contém imagens contíguas”, contestando a interpretação apresentada. Ainda assim, o desenvolvedor eslovaco publicou uma segunda versão da transação. Desta vez, ela estava totalmente compatível com o BIP-110 e, segundo ele, ainda maior que a original. Conforme Habovštiak, esse resultado evidencia que o BIP-110 poderia aumentar — e não reduzir — o volume de dados inseridos no blockchain.
O programador afirma não ter intenção de repetir o experimento e decidiu não publicar o código exato para evitar incentivar novas ondas de inscrições semelhantes a NFTs. Ele reforçou ser contrário ao uso abusivo da rede. Por outro lado, disse que se sentiu motivado a agir por causa do que descreveu como “inverdades” promovidas pelo grupo Knots.
Assim, Habovštiak encerrou sua explicação com uma declaração direta: “Há algo que odeio muito mais do que spam: mentiras.” O episódio evidencia como discussões sobre o papel do Bitcoin continuam profundamente polarizadas, especialmente quando tocam na fronteira entre inovação, propósito e governança.

