- Phong Le admite vender BTC para pagar dividendo de 11,5% da STRC
- Strategy detém 818.334 BTC, cerca de 4% do supply em circulação
- CEO afirma que volume diário de US$ 60 bi absorve eventual venda
A política do “Never Sell” da Strategy ganhou um asterisco. Em entrevista à CNBC, o CEO Phong Le listou as situações em que a maior detentora corporativa de Bitcoin do mundo poderia, sim, desovar parte de suas moedas. A fala chega dias depois de Michael Saylor sinalizar a mesma possibilidade no perfil oficial no X.
A linha de defesa é matemática. Le afirma que a empresa pode liquidar BTC quando isso elevar o indicador de Bitcoin por ação — métrica que a tesouraria usa para medir valor entregue ao acionista comum. Em outras palavras: se vender criptoativo for melhor do que emitir mais ações para cobrir a folha, a venda acontece.
A conta da ação preferencial STRC
O gatilho mais imediato é o dividendo de 11,5% ao ano da Perpetual Preferred Stock STRC. A obrigação anual da companhia com dividendos passa de US$ 1,5 bilhão. Frente aos cerca de US$ 65 bilhões em Bitcoin no balanço, Le classifica o compromisso como administrável.
“Acredito em matemática acima de ideologia”, disse o executivo. Segundo ele, vender BTC torna-se acretivo ao acionista quando o valor patrimonial da empresa fica abaixo do valor de mercado — ou no caminho inverso. Outra hipótese citada envolve capturar ganhos ou prejuízos tributários diferidos, situação relevante no atual recuo do mercado.
O posicionamento marca uma inflexão sutil em relação ao tom adotado por Saylor por anos. Recentemente, o presidente do conselho havia tentado tranquilizar o mercado ao afirmar que compraria muito mais BTC do que venderia. A leitura do CEO é menos dogmática e abre espaço para gestão ativa do estoque.
Impacto no preço do Bitcoin
A simples menção a vendas por parte da Strategy não cai bem entre investidores. A empresa carrega 818.334 BTC, aproximadamente 4% do supply total da rede. Qualquer movimento ali é acompanhado em tempo real por traders e analistas on-chain.
Le minimiza o efeito. Para ele, vender em mercado aberto o equivalente a um pagamento de US$ 1,5 bilhão é “uma gota no oceano” diante do volume diário de mais de US$ 60 bilhões negociados em Bitcoin. O CEO reconhece o peso simbólico da Strategy, mas descarta influência relevante sobre a formação de preço.
O argumento da liquidez tem amparo, mas ignora o componente comportamental. Vendas anunciadas por tesourarias listadas costumam disparar coberturas em mídia financeira e movimentos defensivos em derivativos. Não por acaso, o anúncio coincide com um período em que as reservas de Bitcoin em exchanges caíram 100 mil BTC em 90 dias, indicando aperto de oferta no spot.
Leitura para o investidor brasileiro
No momento da publicação, o BTC era negociado perto de US$ 80.840, alta de 0,5% em 24 horas. Em reais, o ativo opera próximo de R$ 437 mil na cotação atual, segundo médias de exchanges locais como Mercado Bitcoin e Foxbit.
Para quem investe pelo Brasil, o ponto sensível é o efeito de segunda ordem. A Strategy é referência para outras tesourarias corporativas — incluindo nomes brasileiros que adotaram BTC em balanço, como Méliuz e OranjeBTC. Uma flexibilização do mantra “never sell” pode encorajar gestores locais a tratar o BTC como ativo financeiro tradicional, com janelas de venda parametrizadas.
Há ainda o ângulo regulatório. A CVM acompanha desde 2024 como empresas listadas marcam Bitcoin a mercado e contabilizam ganhos não realizados. Eventuais vendas da Strategy criariam um benchmark contábil relevante, com reflexo em quem replica a estratégia na B3.
O risco macro também pesa. Caso a inflação americana surpreenda e o Bitcoin teste a faixa de US$ 70 mil, o gatilho de captura de prejuízo tributário citado por Le pode se tornar economicamente atrativo antes do esperado.

