- Warren mira charters bancários concedidos pelo OCC e pelo Federal Reserve a empresas cripto
- Senadora cita Anchorage Digital e Custodia como exemplos de risco sistêmico
- Críticas miram aprovações feitas durante o governo Trump no setor cripto
A senadora democrata Elizabeth Warren intensificou as críticas ao Office of the Comptroller of the Currency (OCC) e ao Federal Reserve. Para ela, as duas agências estão concedendo licenças bancárias a empresas de criptomoedas que não têm estrutura mínima de gestão de risco. A ofensiva mira diretamente elizabeth warren no centro do debate regulatório que volta a esquentar em Washington.
Em manifestações recentes, a parlamentar de Massachusetts afirma que os reguladores federais transformaram a concessão de charters bancários em ritual quase automático para o setor digital. O argumento central: empresas cripto estariam ganhando acesso ao núcleo do sistema financeiro americano sem o mesmo escrutínio aplicado a bancos tradicionais.
O alvo: Anchorage e Custodia
Warren nomeia dois casos. O primeiro é o Anchorage Digital Bank, que recebeu charter federal do OCC em 2021 e se tornou o primeiro banco de ativos digitais com licença nacional nos Estados Unidos. O segundo é o Custodia Bank, fundado pela ex-executiva do Morgan Stanley Caitlin Long, em disputa prolongada com o Federal Reserve para obter uma master account.
Segundo a senadora, ambas as instituições carecem de controles de risco compatíveis com o porte da licença pretendida. A leitura é que conceder esse tipo de autorização sem exigências equivalentes às dos bancos comerciais cria portas de entrada para choques que podem se propagar ao restante do sistema. Parte das aprovações citadas ocorreu durante o governo Trump, período que Warren classifica como permissivo demais com o setor cripto.
A sombra de FTX e Silvergate
O argumento ganha peso com episódios recentes. A queda da FTX, em novembro de 2022, e a liquidação voluntária do Silvergate Bank, no início de 2023, ainda servem de munição política. O Silvergate era o principal parceiro bancário de empresas cripto e sucumbiu a uma corrida de depósitos provocada pelo colapso da exchange de Sam Bankman-Fried.
Pouco depois veio o caso do Signature Bank, intervindo pelos reguladores em março de 2023 em meio à crise dos bancos regionais. Os três episódios formam a espinha dorsal do discurso de Warren. Para a senadora, o padrão é claro: instituições altamente expostas ao setor digital tendem a concentrar risco e a transferi-lo para o contribuinte quando algo dá errado. O gabinete oficial da parlamentar tem repetido o mesmo argumento em audiências e cartas a reguladores.
Impacto no debate regulatório e no Brasil
A pressão de Warren chega num momento sensível. O Senado americano discute leis pró-cripto como o CLARITY Act, que redesenharia a divisão de competências entre SEC e CFTC. A senadora se posiciona como a principal voz contrária a essa agenda, defendendo um regime que submeta empresas de ativos digitais às mesmas regras prudenciais dos bancos. Ela também tem cobrado a SEC por limites mais rígidos à entrada de cripto em planos de aposentadoria, como os 401(k).
Para o investidor brasileiro, o ruído importa por dois motivos. Primeiro, decisões do OCC e do Fed sobre charters afetam a liquidez em dólar disponível para exchanges globais que atendem o mercado local — o trauma do Silvergate ainda é citado por mesas de operação em São Paulo quando o assunto é risco de banking partner. Segundo, o tom da regulação americana costuma servir de referência para o Banco Central e a CVM, que finalizam o arcabouço da Lei 14.478/2022. Quanto mais restritivo o ambiente nos EUA, maior a chance de o regulador brasileiro replicar exigências similares para VASPs registrados no país. A discussão também conversa com a tokenização de ações pela SEC e com a recente falência da Bitcoin Depot, ambos casos em que a fronteira entre inovação e supervisão prudencial volta ao centro do debate.
Enquanto o Congresso americano se divide, OCC e Federal Reserve seguem analisando novos pedidos de charter de empresas do setor — sem indicação pública de que pretendam endurecer os critérios em resposta à turbulência recente nos ETFs e nas mesas cripto.
