- Receita formalizou política interna que autoriza IA na seleção de contribuintes para fiscalização
- Autuações do Fisco somaram cerca de R$ 233 bilhões em 2025
- Decisão sobre multa continua com auditor humano, sem automação total
A Receita Federal está ampliando o uso de inteligência artificial (IA) para cruzar informações financeiras dos contribuintes e identificar possíveis irregularidades tributárias. A tecnologia permite analisar dados de contas bancárias, declarações de Imposto de Renda, notas fiscais e registros patrimoniais para encontrar incompatibilidades que possam indicar omissão de rendimentos ou sonegação fiscal.
O avanço ocorre após o Fisco desenvolver ferramentas de IA para investigar operações envolvendo criptomoedas. A tecnologia já foi utilizada para identificar possíveis esquemas de lavagem de dinheiro e fraudes tributárias que movimentaram, em conjunto, mais de R$ 1 bilhão em operações relacionadas a ativos digitais.
Em fevereiro de 2026, a Receita formalizou sua política institucional de inteligência artificial por meio da Portaria RFB nº 647. A norma estabelece regras para o desenvolvimento e uso dessas ferramentas, incluindo medidas de proteção de dados e a obrigação de manter as decisões fiscais sob responsabilidade de servidores públicos.
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A utilização de IA no cruzamento de informações bancárias também foi destacada em uma reportagem do Portal Tempo Novo, publicada em junho e repercutida posteriormente por outras publicações. O movimento faz parte de uma modernização mais ampla da fiscalização, e não da criação de um novo imposto ou de uma autorização irrestrita para examinar transações individuais.
Receita já usa inteligência artificial para fiscalizar criptomoedas
A experiência da Receita Federal com inteligência artificial na investigação de criptoativos começou antes da regulamentação institucional de 2026.
Em setembro de 2024, o Ministério da Fazenda apresentou detalhes do Projeto Analytics, plataforma desenvolvida internamente por auditores-fiscais e analistas-tributários para identificar indícios de irregularidades por meio de algoritmos de IA e análise de redes complexas.
Um dos exemplos apresentados envolveu a identificação de um possível esquema de movimentação de R$ 700 milhões por empresas de fachada utilizadas para comprar criptomoedas. A investigação encontrou indícios de irregularidades em operações de importação e remessas internacionais.
Em outro caso, a ferramenta auxiliou na identificação de um suposto esquema de sonegação fiscal e lavagem de dinheiro relacionado ao tráfico de drogas e armas. As movimentações financeiras investigadas ultrapassavam R$ 350 milhões.
Segundo a Receita, os dois episódios estavam sob investigação em parceria com outros órgãos quando os resultados foram divulgados.
A plataforma também permite visualizar relações entre empresas suspeitas de emitir notas fiscais fraudulentas e companhias beneficiárias das operações. Os investigadores conseguem analisar fluxos financeiros e identificar conexões que seriam mais difíceis de perceber por métodos tradicionais.
O uso da tecnologia foi posteriormente reconhecido no Relatório Anual da Fiscalização 2024–2025, no qual a Receita informou ter identificado inconsistências nas declarações de pessoas físicas envolvendo criptoativos a partir do processamento massivo de dados, inclusive com técnicas de inteligência artificial.
Receita vai cruzar informações das contas bancárias com IA
A nova etapa da modernização tecnológica amplia a capacidade de análise das informações que já são legalmente encaminhadas à administração tributária. Os dados bancários chegam à Receita, entre outros mecanismos, por meio da e-Financeira, sistema criado em 2015 para receber informações de instituições financeiras.
Essas informações podem ser comparadas com declarações de rendimentos, registros de imóveis, movimentações empresariais e outros dados fiscais para identificar possíveis divergências.
Os sistemas podem auxiliar os auditores a encontrar contribuintes que apresentem movimentações financeiras ou patrimônio aparentemente incompatíveis com os rendimentos declarados. Outra possibilidade envolve a identificação de empresas com registros de receitas, despesas e operações financeiras que não correspondam às informações apresentadas nas obrigações tributárias.
A Receita também ampliou o alcance da e-Financeira sobre instituições de pagamento por meio da Instrução Normativa RFB nº 2.278, de agosto de 2025, que estabeleceu medidas de combate a crimes tributários e à lavagem de dinheiro.
Entretanto, o Fisco esclarece que a e-Financeira recebe informações consolidadas de movimentação financeira, sem identificar individualmente cada Pix, transferência ou pagamento realizado. Assim, a utilização de IA não significa que a Receita tenha passado a acompanhar todas as transações bancárias em tempo real.
A Portaria nº 647/2026 também determina que as ferramentas de inteligência artificial não podem substituir o julgamento dos agentes públicos. Os resultados produzidos pelos sistemas devem passar por avaliação humana antes de qualquer decisão administrativa.
Nova declaração de criptomoedas amplia informações disponíveis à Receita
Paralelamente ao avanço da inteligência artificial, a Receita Federal também está expandindo a coleta de informações sobre o mercado de criptoativos.
Em julho de 2026, começou a valer a nova sistemática de prestação de informações da DeCripto, instituída pela Instrução Normativa RFB nº 2.291/2025.
A obrigação foi estruturada para alinhar o Brasil ao Crypto-Asset Reporting Framework (CARF), padrão desenvolvido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Entre as mudanças está a obrigação de prestação de informações por empresas estrangeiras que ofereçam serviços de criptoativos ao mercado brasileiro, conforme os critérios previstos na norma.
Com isso, o Fisco passa a contar com um conjunto mais abrangente de informações sobre operações realizadas por contribuintes brasileiros, inclusive em plataformas sediadas fora do país.
Os números mostram a dimensão desse mercado. Segundo levantamento divulgado pela Receita em julho de 2026, foram declarados aproximadamente R$ 1,58 trilhão em operações de compra e venda dos principais criptoativos entre agosto de 2019 e dezembro de 2025.
Desse total, R$ 1,13 trilhão correspondeu a operações com stablecoins, que passaram a representar mais de 80% do volume mensal declarado nos períodos mais recentes.
Embora a Receita não tenha anunciado que todos os dados da DeCripto serão processados por um sistema específico de inteligência artificial, o histórico do Projeto Analytics demonstra que o órgão já utiliza essas tecnologias para examinar operações com moedas digitais.
A combinação de bases financeiras, declarações tributárias e informações sobre ativos virtuais tende a ampliar as possibilidades de identificação de divergências. O Fisco, porém, deverá respeitar os limites legais de acesso aos dados, o sigilo fiscal e a supervisão humana prevista em sua política de inteligência artificial.




