- Sony Bank recebe aprovação condicional do OCC para banco fiduciário nacional nos EUA
- Connectia Trust nasce com US$ 40 milhões e foco em stablecoin de dólar
- Operação comercial só começa em 2027 e mira pagamentos de games e streaming
A Sony deu um passo inesperado no setor de pagamentos digitais dos Estados Unidos. O Sony Bank, braço financeiro do conglomerado japonês, recebeu aprovação condicional do Office of the Comptroller of the Currency (OCC) para constituir um banco fiduciário nacional dedicado à emissão de stablecoins atreladas ao dólar. A decisão coloca o grupo na mesma trilha percorrida por Circle, Ripple e Paxos nos últimos meses.
A subsidiária se chamará Connectia Trust, National Association. Será totalmente controlada pelo Sony Bank e capitalizada em US$ 40 milhões, segundo comunicado do grupo divulgado nesta semana. A formação jurídica está prevista para julho de 2026, mas a operação comercial só deve começar em 2027. O documento não detalha produtos específicos nem esclarece se o foco será varejo ou clientes institucionais.
Stablecoin para pagar PlayStation e streaming
O ângulo de negócio é peculiar. O jornal japonês Nikkei antecipou no ano passado que a Sony pretende usar a stablecoin como meio de pagamento dentro do próprio ecossistema de assinaturas de games do PlayStation a serviços de streaming e música. A lógica é simples, cortar taxas pagas às bandeiras de cartão de crédito e capturar margem sobre bilhões em transações recorrentes.
A companhia descreve o projeto como parte do “desenvolvimento de uma base de negócios de médio e longo prazo” para as operações de ativos digitais do Sony Financial Group. Traduzindo, não é experimento isolado, mas infraestrutura permanente. Se der certo, a Sony passa a ter um trilho próprio de pagamentos em dólar dentro dos EUA, sem depender de Visa, Mastercard ou processadoras terceirizadas.
Onda de charters sob Jonathan Gould
A Connectia entra numa fila que só cresce. Sob o comando de Jonathan Gould, o OCC aprovou a primeira leva de charters fiduciários nacionais para emissores de stablecoins em dezembro, com Circle, Ripple e Paxos à frente. Grandes bancos como o Morgan Stanley também buscam a licença.
O caminho ganhou tração após o GENIUS Act, lei federal que criou o arcabouço para stablecoins de pagamento permitidas nos EUA. Em junho, o FinCEN e reguladores bancários federais propuseram regras de identificação de clientes para emissores enquadrados na norma. A ideia é submeter as stablecoins ao mesmo perímetro de compliance dos bancos tradicionais, sem exigir seguro do FDIC.
Lobby bancário reage contra a aprovação
A luz verde não veio sem atrito. Quando a Sony protocolou o pedido em outubro, associações bancárias reagiram. O Bank Policy Institute escreveu que o pedido “levanta questões sobre a longa separação entre setor bancário e comércio”. A Independent Community Bankers of America alertou que o OCC não teria estrutura de recuperação judicial adequada para lidar com um emissor de stablecoin sistemicamente relevante e sem cobertura de seguro depositário.
Já a National Community Reinvestment Coalition alegou que a aprovação criaria “um sistema de dois níveis, no qual firmas de ativos digitais recebem status federal comparável ao dos bancos, sem obrigações públicas equivalentes”. O OCC não recuou. Segundo Roman Goldstein, diretor da consultoria Klaros Group, o regulador “não desviou das objeções sobre bancos e comércio, apenas afirmou que a lei permite essa integração”.
Estrutura transfronteiriça inédita
Goldstein classificou o arranjo como o “primeiro banco de ecossistema de conglomerado comercial” o OCC supervisiona o trust nos EUA enquanto a Agência de Serviços Financeiros do Japão fiscaliza a matriz. Um banco de propriedade estrangeira sem o Federal Reserve no circuito, algo raríssimo. Antes de abrir, Connectia ainda precisa cumprir condições prévias do regulador, que pode exigir diretor financeiro dedicado integralmente.
No mercado brasileiro, movimento reforça tendência já acompanhada, stablecoins como infraestrutura de pagamentos aprovada pelo governo americano federal. Isso pesa sobre o real digital, sobre as remessas internacionais via cripto e sobre o próprio Drex. A demanda por USDT e USDC no Brasil já é a maior da América Latina, e a chegada de uma emissora do porte da Sony ao setor tende a acelerar a integração de stablecoins a plataformas de consumo algo que exchanges locais como Mercado Bitcoin, recém-capitalizado pela Tether, já vinham antecipando. A pressão regulatória sobre o supply global também aparece nos dados da CryptoQuant sobre liquidez em stablecoins.
