- Tether fecha 2025 com US$ 141 bilhões em exposição direta e indireta a Treasuries dos EUA
- GENIUS Act obriga lastro 100% em ativos líquidos e cria demanda perpétua por dívida americana
- FMI alerta para risco de corrida em stablecoins capaz de liquidar Treasuries em velocidade de máquina
A Tether, emissora da maior stablecoin do mundo, encerrou 2025 com exposição direta e indireta a títulos do Tesouro americano superior a US$ 141 bilhões. O número coloca a empresa sediada em El Salvador como o 17º maior detentor de dívida soberana dos EUA no planeta e o maior credor não-soberano de Washington — posição que reorganiza o jogo do financiamento público americano e prende a tese de longo prazo do dólar à expansão do mercado cripto.
O salto ocorre menos de um ano após o presidente Donald Trump assinar, em 18 de julho de 2025, o GENIUS Act, primeira lei federal a regulamentar stablecoins nos Estados Unidos. O texto passou no Senado por 68 a 30 e na Câmara por 308 a 122. Exige lastro integral em ativos líquidos — dólares ou Treasuries de curto prazo — e divulgação mensal da composição das reservas.
Como a Tether virou credora de Washington
O mecanismo é circular. Cada USDT emitido corresponde a um dólar entregue por um usuário, e esse dólar precisa ser estacionado em algum lugar. Depois do colapso da FTX em 2022 e das críticas sobre a qualidade do lastro, a Tether migrou para a classe de ativo considerada mais segura e líquida disponível: dívida americana.
Em março de 2025, 81,5% das reservas totais da empresa, então de US$ 149,3 bilhões, estavam em caixa, equivalentes e depósitos de curto prazo. O grosso correspondia a US$ 98,5 bilhões em T-bills diretos e US$ 15,1 bilhões em acordos de recompra overnight. Quanto mais demanda global por dólares digitais, mais USDT circula, mais caixa entra e mais títulos americanos são comprados.
O Fundo Monetário Internacional, em relatório de julho de 2025, registrou que Tether e Circle juntas detêm mais Treasuries do que a Arábia Saudita. O secretário do Tesouro Scott Bessent chegou a chamar a regra de lastro do GENIUS Act de “motor de alívio da dívida”, projetando um mercado de stablecoins de US$ 3,7 trilhões até 2030.
O impacto sobre bancos tradicionais
A integração tem outro lado. Um relatório do Tesouro dos EUA estimou em abril que stablecoins podem drenar até US$ 6,6 trilhões em depósitos do sistema bancário. O Citi Institute calcula que até US$ 1 trilhão pode sair dos bancos domésticos até 2030. O Standard Chartered projeta saída de US$ 500 bilhões até o fim de 2028 mesmo sob as restrições atuais.
Foi essa pressão do lobby bancário que produziu uma das cláusulas mais comentadas do GENIUS Act: a proibição de que emissores paguem rendimento direto aos detentores. A regra evita que stablecoins forcem repricing dos depósitos bancários. A disputa real, hoje, é se carteiras e plataformas terceirizadas podem distribuir parte do yield dos Treasuries que lastreiam o USDT.
O que isso significa para o investidor brasileiro
O cenário pesa diretamente sobre exchanges locais. O USDT é a stablecoin mais negociada no Brasil — Mercado Bitcoin, Foxbit e Binance Brasil reportam o par USDT/BRL entre os mais líquidos da casa. Se as regras americanas restringirem rendimentos via wallets, plataformas brasileiras que estudavam produtos de yield com stablecoins precisarão repensar a engenharia. A discussão regulatória no Brasil, conduzida pelo Banco Central sob a Lei 14.478/22, ainda trata stablecoins como ativos virtuais genéricos, sem o detalhamento de reservas exigido pelo GENIUS Act.
Há ainda o risco sistêmico apontado pelo FMI. Em cenário de estresse, uma corrida sobre uma stablecoin de grande porte forçaria liquidação rápida de Treasuries, justamente em momento de mercado pressionado. O órgão compara stablecoins a fundos de mercado monetário, mas com liquidação em velocidade de máquina — sem a janela de intervenção que o sistema tradicional oferece. Para o investidor brasileiro acostumado a parquear lucros de cripto em USDT, isso adiciona uma variável que antes não existia: o risco soberano americano agora vive dentro do próprio stablecoin. O debate sobre concentração do setor ganha peso adicional, e a posição de reguladores como o BCE diante das stablecoins em euro mostra que a Europa enxerga o mesmo dilema por outra ótica.